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Não há dúvida que é uma peça "vistosa": diversos selos, na frente
e no verso, carimbos obliteradores – ADMINISTRACION DE CORREOS / PROVINCIA DE
GALAPAGOS / FLOREANA – carimbos datadores – 27 ENE 1986 – e nada menos que
quatro marcas adicionais todas elas de algum modo referindo o "correio de
barril" que funciona em Floreana (uma das ilhas Galápagos):
* POST-OFFICE/GALAPAGOS
* EL CORREO MAS ANTIGUO DEL EQUADOR –
FUNDADO EN 1793/FLOREANA/GALAPAGOS
* GALAPAGOS/BARREL MAIL
* BARREL MAILBOX/IN THE PACIFIC/THE
GALAPAGOS ISLANDS


O que é este "correio de barril" das Galápagos?
Talvez o melhor seja citar quem o conheceu bem:
"Depois da sua descoberta pelos Espanhóis, as Ilhas dos
Galápagos tornaram-se num esconderijo para os corsários, e, mais tarde, nos
princípios do século XIX, uma base para os pescadores de baleias. Estes
construíram um depósito de carne fresca em Floreana e fundaram também
qualquer coisa mais, que funciona ainda hoje: o "correio".
Talvez correio seja um nome demasiado pomposo – "caixa
do correio" seria mais apropriado – porque afinal trata-se de um barril
fixado sobre umas estacas, na baía que os pescadores de baleias baptizaram de Post
Office Bay. Todos os navios ali deixavam o correio na sua rota ou o levavam
na viagem de regresso. Durante a guerra Anglo-Americana de 1812, um capitão da
marinha americana soube que os navios britânicos andavam perto das ilhas e
tinham rumado para Post Office Bay. Pois neste barril, à espera de ser
levada por pescadores de baleias de regresso à Inglaterra, encontrou ele uma
lista de navios ingleses com as respectivas posições. Tanto bastou para a
captura de doze barcos da frota inimiga num total de um milhão de toneladas.
Esta caixa do correio seria o nosso único meio de comunicação com o mundo
exterior, e, muito embora levasse seis meses ou mais a chegar (…) a verdade é
que o correio nunca se extraviava."
Margret Wittmer, "Os Robinson dos Galápagos",
Lisboa, Editorial Aster, 1961, p.30-31
Curiosamente a autora do livro de onde retirei esta citação
era, em 1986, a responsável pelo correio em Floreana e escreveu a carta que
viajou dentro do envelope. O livro descreve a odisseia da família Wittmer desde
que emigrou da Alemanha para as Galápagos, em 1932. Na Alemanha o marido era
secretário de Konrad Adenauer, Oberburgermeister de Colónia antes do advento
do nazismo. A escolha das Galápagos ficou a dever-se a uma série de
reportagens em jornais e revistas da época acerca de um tal Dr Ritter, um
dentista berlinense que, em 1929, foi viver para as Galápagos, mais
exactamente, para Floreana. Tratava-se de um original que pretendia chegar aos
150 anos vivendo de acordo com a sua "filosofia da natureza". Era
dentista e para não vir a sofrer dos dentes na solidão das Galápagos optou
por arrancar todos os dentes antes da partida! Um dos pilares da sua
"filosofia da natureza" era o vegetarianismo, mas dois anos após a
sua chegada regalava-se, à socapa, com suculentos bifes dos animais que
caçava! Acabou por falecer por comer carne de galinha deteriorada.
O livro lê-se com agrado: está recheado de episódios
curiosos e de longe em longe surgem referências ao "correio de
barril". Aliás o título original é Postlagernd Floreana (Posta
Restante Floreana).