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Nº 116
2003/04


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 DIVAGANDO EM TORNO DE UMA CARTA

José Manuel M. Cardia Lopes 

Ao folhear um classificador reencontrei o envelope oriundo das Galápagos reproduzido na figura. Obtive-o há alguns anos seguindo a sugestão de um artigo aparecido na revista Franquia1. Não há dúvida que é uma peça "vistosa": diversos selos, na frente e no verso, carimbos obliteradores – ADMINISTRACION DE CORREOS / PROVINCIA DE GALAPAGOS / FLOREANA – carimbos datadores – 27 ENE 1986 – e nada menos que quatro marcas adicionais todas elas de algum modo referindo o "correio de barril" que funciona em Floreana (uma das ilhas Galápagos):

 

* POST-OFFICE/GALAPAGOS

* EL CORREO MAS ANTIGUO DEL EQUADOR –

FUNDADO EN 1793/FLOREANA/GALAPAGOS

* GALAPAGOS/BARREL MAIL

* BARREL MAILBOX/IN THE PACIFIC/THE

GALAPAGOS ISLANDS

O que é este "correio de barril" das Galápagos? Talvez o melhor seja citar quem o conheceu bem:

"Depois da sua descoberta pelos Espanhóis, as Ilhas dos Galápagos tornaram-se num esconderijo para os corsários, e, mais tarde, nos princípios do século XIX, uma base para os pescadores de baleias. Estes construíram um depósito de carne fresca em Floreana e fundaram também qualquer coisa mais, que funciona ainda hoje: o "correio".

Talvez correio seja um nome demasiado pomposo – "caixa do correio" seria mais apropriado – porque afinal trata-se de um barril fixado sobre umas estacas, na baía que os pescadores de baleias baptizaram de Post Office Bay. Todos os navios ali deixavam o correio na sua rota ou o levavam na viagem de regresso. Durante a guerra Anglo-Americana de 1812, um capitão da marinha americana soube que os navios britânicos andavam perto das ilhas e tinham rumado para Post Office Bay. Pois neste barril, à espera de ser levada por pescadores de baleias de regresso à Inglaterra, encontrou ele uma lista de navios ingleses com as respectivas posições. Tanto bastou para a captura de doze barcos da frota inimiga num total de um milhão de toneladas. Esta caixa do correio seria o nosso único meio de comunicação com o mundo exterior, e, muito embora levasse seis meses ou mais a chegar (…) a verdade é que o correio nunca se extraviava."

Margret Wittmer, "Os Robinson dos Galápagos", Lisboa, Editorial Aster, 1961, p.30-31

Curiosamente a autora do livro de onde retirei esta citação era, em 1986, a responsável pelo correio em Floreana e escreveu a carta que viajou dentro do envelope. O livro descreve a odisseia da família Wittmer desde que emigrou da Alemanha para as Galápagos, em 1932. Na Alemanha o marido era secretário de Konrad Adenauer, Oberburgermeister de Colónia antes do advento do nazismo. A escolha das Galápagos ficou a dever-se a uma série de reportagens em jornais e revistas da época acerca de um tal Dr Ritter, um dentista berlinense que, em 1929, foi viver para as Galápagos, mais exactamente, para Floreana. Tratava-se de um original que pretendia chegar aos 150 anos vivendo de acordo com a sua "filosofia da natureza". Era dentista e para não vir a sofrer dos dentes na solidão das Galápagos optou por arrancar todos os dentes antes da partida! Um dos pilares da sua "filosofia da natureza" era o vegetarianismo, mas dois anos após a sua chegada regalava-se, à socapa, com suculentos bifes dos animais que caçava! Acabou por falecer por comer carne de galinha deteriorada.

O livro lê-se com agrado: está recheado de episódios curiosos e de longe em longe surgem referências ao "correio de barril". Aliás o título original é Postlagernd Floreana (Posta Restante Floreana).

 

 

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