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Mas deixemos de lado Xilunguíne e Mafumo, nomes sem interesse filatélico objectivo e fixemo-nos no topónimo Delagoa Bay, que os ingleses "inventaram" a partir da portuguesa Baía da Lagoa, nome polémico que fez correr muita tinta e que ainda, actualmente, por vezes é referido num contexto que demonstra ignorância sobre o seu real significado. Não é conhecido qualquer carimbo dos Correios com este nome que, contudo, aparece com grande frequência nos endereços das correspondências dos fins do século XIX e princípios do século XX, respeitantes a Lourenço Marques. A Baía de Lourenço Marques foi descoberta por navegadores portugueses, logo após a primeira viagem de Vasco da Gama á Índia, aparecendo já referenciada em 1502, no célebre mapa de Cantino. Era conhecida, nesses primeiros tempos, por BAÍA DA LAGOA, pois acreditava-se que os vários rios que nela desaguavam provinham de uma grande lagoa existente no interior (3). O seu reconhecimento geográfico só viria a ser feito em 1544, no reinado de D.João III, por um obscuro navegador chamado Lourenço Marques, piloto das naus da Índia e negociante (tratante, como então se dizia, isto é a pessoa que fazia tratos ou negócios), por ordem, segundo se crê, do Capitão de Sofala e Moçambique, João de Sepúlveda. Supõe-se, embora não sejam conhecidas provas documentais, que foi D.João III, que havia mandado explorar a região reconhecendo a sua importância para o trato do comércio, lhe deu o nome de Lourenco Marques, homenageando aquele navegador. Mas não tendo havido uma ocupação efectiva dos portugueses, a Baía começou a ser frequentada por navegadores de outras nacionalidades, holandeses, ingleses e franceses, chegando mesmo a haver tentativas de estabelecimento de feitorias, que fracassaram, por holandeses e austríacos no século XVIII. A soberania portuguesas foi restabelecida quando em 1782 desembarcou na Baía o primeiro governador de Lourenço Marques, Joaquim de Araújo, fundando com um reduzido destacamento de homens mal preparados e equipados, o presídio de Nossa Senhora da Conceição, no local do "providencial estuário [do rio] do Espirito Santo [onde se] pode à"priori" concluir que esse lugar estava predestinado para base de um empório comercial, apenas ali se cruzassem com as correntes do "hinterland" as do tráfego oceânico" (4), Sítio inóspito e constantemente ameaçado pelos ataques dos regulados vizinhos, onde nasceu a povoação, depois vila (1876), mais tarde cidade (1887) e capital (1898), com o seu importante porto, que se chamou Lourenço Marques e que alguns teimavam em designar por Delagoa Bay. Teimosamente ou por inconfessados interesses...
DELAGOA BAY, UM TOPÓNIMO QUE TARDOU A DESAPARECER Segundo o historiador Dr, Alexandre Lobato (5), na segunda metade do século XVIII a designação internacional de Lourenço Marques era Delagoa; e tanto assim era que os holandeses, que tentaram instalar uma feitoria no local, construíram uma fortificação a que chamaram Forte Lagoa. E nos fins do século XIX acentuava-se a influência inglesa na região, graças á política de intrigas que então se praticava com os chefes indígenas, à influência exercida pelas companhias magestáticas; enfim todos os meios eram utilizados para minar os interesses portugueses e contestar a nossa soberania, que se consolidou definitivamente em 1875 com a sentença arbitral de Mac-Mahon (6). Houve até um jornal que se intitulava "Delagoa Bay Gazette" Vejamos o que a este propósito escreveu o citado historiador moçambicano: - "Estava-se no esplendor da influência britânica. A Inglaterra tornara a fazer mão-baixa do Transval. Vivia-se a época faustosa das grande companhias inglesas de Delagoa Bay, pois Lourenço Marques voltara a chamar-se Delagoa, como vinha escrito nos caixotes que a alfândega despachava". Nos caixotes e nas correspondências, acrescentamos nós: Este estado de coisas chegou a um ponto tal que, diz-se, um governador do Distrito, aborrecido e ofendido nos seus brios patrióticos de bom português com o teimoso e abusivo uso de Delagoa, deu instruções para que toda a correspondência endereçada com esta designação fosse imediatamente devolvida. Não anotámos, infelizmente, a origem da referência lida algures, há muitos anos, e por isso nunca conseguimos confirmar este facto, que seria de muito interesse para a história Postal de Moçambique. Desconhecemos, assim, se existe algum documento oficial. Mas a verdade é que uma carta da época devolvida ao remetente, com anotações que explicassem a razão da devolução, seria uma peça de história postal (e não só...) extremamente interessante! Pode ser que um dia apareça ainda tão sensacional documento filatélico - no lugar próprio e em mãos certas -, que se encontre esquecido em velho arquivo ou que faça parte de uma colecção, devidamente resguardado, é certo, mas sem que seja notada a sua importância... Ilustramos estas notas, talvez não tão filatélicas como é habitual nos nossos escritos, com alguns exemplos, dos muitos que são conhecidos por todo o lado:- Na gravura 4, em carta em 1899, nota-se o endereço do remetente com as duas designações - LOURENÇO-MARQUES/DELAGOA BAY; repare-se que as letras de Delagoa Bay são maiores do que as de Lourenço Marques. Por outro lado, numa carta de 1905 (Fig.5), omite-se pura e simplesmente o topónimo da cidade, considerando-se que Delagoa Bay apenas, era mais do que suficiente para a correspondência chegar ao seu destino, sem problemas; como usual, o remetente é uma importante firma inglesa, aliás muito conceituada em Moçambique pelos tempos fora. Um curioso bilhete-postal ilustrado de 1906, que reproduz uma vista da Ponta Vermelha (Bairro de grandes tradições na cidade), tem a legenda impressa Lourenço Marques (Fig.6), a que o remetente entendeu por bem, à cautela, acrescentar o famigerado (Delagoa Bay), na sua letra, com parenteses e tudo!
A terminar, fazemos notar que a Baia de Lourenço Marques, foi desde sempre também conhecida como Baía da Lagoa, o que nada tem a ver, evidentemente, com a abusiva Delagoa (palavra, aliás, de morfologia errada), referindo-se á cidade. Um mapa de 1899, por exemplo, grafa com todos os pormenores: Lourenço Marques para a cidade/capital; Rio de Lourenço Marques ou do Espirito Santo; Bahia de Lourenço Marques ou da Lagôa.
BIBLIOGRAFIA - Colecção de recortes do arquivo do autor. - Jornal "Noticias" (Lourenço Marques) , número especial, Natal de 1966. - "Lourenço Marques, Xilunguíne - Biografia da Cidade", por Alexandre Lobato; edição da Agência Geral do Ultramar - Lisboa, 1970.
NOTAS 1 Fizemos neste espaço um breve resumo do assunto, pouco exaustivo e, consequentemente, com falhas de pormenor. 2 Lourenço Marques foi elevada à categoria de cidade por Decreto de 10 de Novembro de 1887, no reinado de D.Luís I. 3 Segundo Alfredo Pereira de Lima, historiador moçambicano, que foi responsável pelo Gabinete de História da Câmara Municipal de Lourenço Marques. 4 Segundo Jaime Cortesão, citado por Alfredo Pereira de Lima. 5 Alexandre Marques Lobato, ilustre historiador; nasceu em Lourenço Marques (1915) e faleceu em Lisboa (1985). Publicou vários livros e valiosos estudos sobre a história de Moçambique. 6 O presidente da República Francesa, Marechal Mac-Mahon, por sentença arbitral, decidiu a favor de Portugal o litígio com a Inglaterra sobre os direitos de soberania destes territórios, no sul de Moçambique.
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