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Nº 116
2003/04


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 REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE
AS ALTERAÇÕES TOPONÍMICAS E OS CARIMBOS DOS CORREIOS
XXV - QUANDO SE CHAMAVA "DELAGOA BAY" A LOURENÇO MARQUES
1ª Parte

Jorge Luís P. Fernandes

BREVES CONSIDERAÇÕES TOPONÍMICAS E HISTÓRICAS

Baía da Lagoa, Lourenco Marques, Delagoa Bay (ou simplesmente Delagoa), Xilunguíne (ou Chilunguíne), Mafumo (ou Camfumo, existindo ainda outras variantes de grafia) e finalmente (mas não consensualmente) Maputo são tudo topónimos que dizem respeito à grande e bela cidade, com o seu magnífico porto, capital do país à beira do Índico que actualmente é a República de Moçambique. Lourenco Marques foi ainda a capital do território que, sob a soberania portuguesa, administrativamente começou por ser província ultramarina, depois colónia, para passar novamente a província e a seguir a estado; foi rebaptizada com o nome de Maputo em 3 de Fevereiro de 1976, depois da independência do país (Fig.1).

Muitos daqueles nomes e as sucessivas mudanças administrativas tiveram e continuam a ter expressão na Filatelia, o que bem demonstra a importância deste passatempo, eminentemente cultural, nas suas diversas vertentes (isto, usando um estafado, mas sempre verdadeiro e actual lugar comum).

Vem a propósito referir que os primeiros selos do território, do tipo "Coroa", têm simplesmente a legenda "Moçambique; logo a seguir as emissões de D. Luís aparecem com a designação de "Província de Moçambique"; depois, nos selos de D.Carlos vemos "Portugal/Moçambique", passando novamente ao comum "Moçambique", que perdurou largos anos; com o Acto Colonial de Salazar temos a emissão evocativa das vitórias de Mouzinho de Albuquerque (1930/31) que leva inscrita a designação "Colónia de Moçambique", logo seguida, em 1938, das séries comuns a todos os territórios ultramarinos portugueses com a "imponente", mas pouco duradoura legenda "Império Colonial Português"; voltando-se depois à simplificação de "Moçambique", esporadicamente aparecem as emissões comemorativas do Centenário do Selo Postal de Portugal com a inédita legenda "Ultramar Português" (que não voltou a repetir-se), fixando-se logo a seguir, até à independência, a forma "República Portuguesa/Moçambique". Curiosamente, entretanto, os selos de imposto postal tipo "Pelicano" e outros levaram, primeiro, a legenda "Colónia de Moçambique", ressuscitando, depois, a "velha" inscrição das emissões monárquicas "Província de Moçambique1".

Por outro lado, no tempo colonial o topónimo Lourenço Marques teve grande expressão, obviamente, no panorama filatélico, quer nos selos propriamente ditos, quer nos variadíssimos carimbos dos Correios (Fig.2), usados durante muitos anos; e não nos esqueçamos que o respectivo Distrito teve os seus próprios selos, emitidos de 1893 a 1921. A mesma importância,no âmbito filatélico, se verifica em relação a Maputo, após a independência, sendo interessante lembrar que uma emissão da República de Moçambique, de 1987, comemorou o centenário desta cidade que, necessariamente, em 18872 se chamava Lourenço Marques (Fig. 3).

 

Fig. 3 Motivo do selo, Lourenço Marques em 1876 - planta do Presídio com a Linha de Defesa, publicada na "Planta Geral da Cidade e Porto de Lourenço Marques" (1926).

Mas deixemos de lado Xilunguíne e Mafumo, nomes sem interesse filatélico objectivo e fixemo-nos no topónimo Delagoa Bay, que os ingleses "inventaram" a partir da portuguesa Baía da Lagoa, nome polémico que fez correr muita tinta e que ainda, actualmente, por vezes é referido num contexto que demonstra ignorância sobre o seu real significado. Não é conhecido qualquer carimbo dos Correios com este nome que, contudo, aparece com grande frequência nos endereços das correspondências dos fins do século XIX e princípios do século XX, respeitantes a Lourenço Marques.

A Baía de Lourenço Marques foi descoberta por navegadores portugueses, logo após a primeira viagem de Vasco da Gama á Índia, aparecendo já referenciada em 1502, no célebre mapa de Cantino. Era conhecida, nesses primeiros tempos, por BAÍA DA LAGOA, pois acreditava-se que os vários rios que nela desaguavam provinham de uma grande lagoa existente no interior (3). O seu reconhecimento geográfico só viria a ser feito em 1544, no reinado de D.João III, por um obscuro navegador chamado Lourenço Marques, piloto das naus da Índia e negociante (tratante, como então se dizia, isto é a pessoa que fazia tratos ou negócios), por ordem, segundo se crê, do Capitão de Sofala e Moçambique, João de Sepúlveda. Supõe-se, embora não sejam conhecidas provas documentais, que foi D.João III, que havia mandado explorar a região reconhecendo a sua importância para o trato do comércio, lhe deu o nome de Lourenco Marques, homenageando aquele navegador.

Mas não tendo havido uma ocupação efectiva dos portugueses, a Baía começou a ser frequentada por navegadores de outras nacionalidades, holandeses, ingleses e franceses, chegando mesmo a haver tentativas de estabelecimento de feitorias, que fracassaram, por holandeses e austríacos no século XVIII.

A soberania portuguesas foi restabelecida quando em 1782 desembarcou na Baía o primeiro governador de Lourenço Marques, Joaquim de Araújo, fundando com um reduzido destacamento de homens mal preparados e equipados, o presídio de Nossa Senhora da Conceição, no local do "providencial estuário [do rio] do Espirito Santo [onde se] pode à"priori" concluir que esse lugar estava predestinado para base de um empório comercial, apenas ali se cruzassem com as correntes do "hinterland" as do tráfego oceânico" (4), Sítio inóspito e constantemente ameaçado pelos ataques dos regulados vizinhos, onde nasceu a povoação, depois vila (1876), mais tarde cidade (1887) e capital (1898), com o seu importante porto, que se chamou Lourenço Marques e que alguns teimavam em designar por Delagoa Bay. Teimosamente ou por inconfessados interesses...

 

DELAGOA BAY, UM TOPÓNIMO QUE TARDOU A DESAPARECER

Segundo o historiador Dr, Alexandre Lobato (5), na segunda metade do século XVIII a designação internacional de Lourenço Marques era Delagoa; e tanto assim era que os holandeses, que tentaram instalar uma feitoria no local, construíram uma fortificação a que chamaram Forte Lagoa.

E nos fins do século XIX acentuava-se a influência inglesa na região, graças á política de intrigas que então se praticava com os chefes indígenas, à influência exercida pelas companhias magestáticas; enfim todos os meios eram utilizados para minar os interesses portugueses e contestar a nossa soberania, que se consolidou definitivamente em 1875 com a sentença arbitral de Mac-Mahon (6). Houve até um jornal que se intitulava "Delagoa Bay Gazette" Vejamos o que a este propósito escreveu o citado historiador moçambicano: - "Estava-se no esplendor da influência britânica. A Inglaterra tornara a fazer mão-baixa do Transval. Vivia-se a época faustosa das grande companhias inglesas de Delagoa Bay, pois Lourenço Marques voltara a chamar-se Delagoa, como vinha escrito nos caixotes que a alfândega despachava". Nos caixotes e nas correspondências, acrescentamos nós:

Este estado de coisas chegou a um ponto tal que, diz-se, um governador do Distrito, aborrecido e ofendido nos seus brios patrióticos de bom português com o teimoso e abusivo uso de Delagoa, deu instruções para que toda a correspondência endereçada com esta designação fosse imediatamente devolvida. Não anotámos, infelizmente, a origem da referência lida algures, há muitos anos, e por isso nunca conseguimos confirmar este facto, que seria de muito interesse para a história Postal de Moçambique. Desconhecemos, assim, se existe algum documento oficial. Mas a verdade é que uma carta da época devolvida ao remetente, com anotações que explicassem a razão da devolução, seria uma peça de história postal (e não só...) extremamente interessante! Pode ser que um dia apareça ainda tão sensacional documento filatélico - no lugar próprio e em mãos certas -, que se encontre esquecido em velho arquivo ou que faça parte de uma colecção, devidamente resguardado, é certo, mas sem que seja notada a sua importância...

Ilustramos estas notas, talvez não tão filatélicas como é habitual nos nossos escritos, com alguns exemplos, dos muitos que são conhecidos por todo o lado:- Na gravura 4, em carta em 1899, nota-se o endereço do remetente com as duas designações - LOURENÇO-MARQUES/DELAGOA BAY; repare-se que as letras de Delagoa Bay são maiores do que as de Lourenço Marques. Por outro lado, numa carta de 1905 (Fig.5), omite-se pura e simplesmente o topónimo da cidade, considerando-se que Delagoa Bay apenas, era mais do que suficiente para a correspondência chegar ao seu destino, sem problemas; como usual, o remetente é uma importante firma inglesa, aliás muito conceituada em Moçambique pelos tempos fora. Um curioso bilhete-postal ilustrado de 1906, que reproduz uma vista da Ponta Vermelha (Bairro de grandes tradições na cidade), tem a legenda impressa Lourenço Marques (Fig.6), a que o remetente entendeu por bem, à cautela, acrescentar o famigerado (Delagoa Bay), na sua letra, com parenteses e tudo!

A terminar, fazemos notar que a Baia de Lourenço Marques, foi desde sempre também conhecida como Baía da Lagoa, o que nada tem a ver, evidentemente, com a abusiva Delagoa (palavra, aliás, de morfologia errada), referindo-se á cidade. Um mapa de 1899, por exemplo, grafa com todos os pormenores: Lourenço Marques para a cidade/capital; Rio de Lourenço Marques ou do Espirito Santo; Bahia de Lourenço Marques ou da Lagôa.

 

BIBLIOGRAFIA

- Colecção de recortes do arquivo do autor.

- Jornal "Noticias" (Lourenço Marques) , número especial, Natal de 1966. - "Lourenço Marques, Xilunguíne - Biografia da Cidade", por Alexandre Lobato; edição da Agência Geral do Ultramar - Lisboa, 1970.

 

NOTAS

1 Fizemos neste espaço um breve resumo do assunto, pouco exaustivo e, consequentemente, com falhas de pormenor.

2 Lourenço Marques foi elevada à categoria de cidade por Decreto de 10 de Novembro de 1887, no reinado de D.Luís I.

3 Segundo Alfredo Pereira de Lima, historiador moçambicano, que foi responsável pelo Gabinete de História da Câmara Municipal de Lourenço Marques.

4 Segundo Jaime Cortesão, citado por Alfredo Pereira de Lima.

5 Alexandre Marques Lobato, ilustre historiador; nasceu em Lourenço Marques (1915) e faleceu em Lisboa (1985). Publicou vários livros e valiosos estudos sobre a história de Moçambique.

6 O presidente da República Francesa, Marechal Mac-Mahon, por sentença arbitral, decidiu a favor de Portugal o litígio com a Inglaterra sobre os direitos de soberania destes territórios, no sul de Moçambique.

 

 

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