Os sobrescritos do primeiro dia são, como todos sabemos,
peças filatélicas que comportam um selo e um carimbo, sendo essencial que a
data deste corresponda ao primeiro dia de circulação do selo. Porque a data é
fundamentalíssima, e a generalização dos FDCs (First day covers como têm
sido consagrado pela generalização da terminologia inglesa) está associada à
correspondente vulgarização das emissões de selos comemorativos. Nestes a
data aparece muitas vezes associada ao acontecimento comemorado e pode ser
determinada com rigor.
Selo e carimbo datador, muitas vezes um carimbo concebido
exclusivamente para a data de lançamento, com data do primeiro dia de
circulação, eis os elementos constitutivos do FDC.
Esta classificação genérica engloba uma multiplicidade de
situações.
Em primeiro lugar, quanto ao suporte. Embora a designação
se refira a sobrescritos, caso estejamos perante um cartão que comporta os
referidos selos e carimbo ou perante um inteiro postal com carimbo de data do
primeiro dia de circulação podemos considerar estar perante a mesma realidade.
Em segundo lugar, quanto à origem. A sua criação tanto
pode resultar da iniciativa do coleccionador, de comerciantes, da
administração postal ou de qualquer outra instituição.
Em terceiro lugar, quanto à forma. Ora se opta por um
sobrescrito ou cartão branco onde se coloca o selo e o carimbo datador, ora se
produz um material de suporte que pelas suas imagens acrescenta nova
informação sobre o evento comemorado. Ora essa informação adicional é
produzida em série ora estamos perante um trabalho de artesanato, quiçá
artístico, único. Também o carimbo utilizado pode ser comemorativo (devendo
corresponder ao evento) ou não.
Em quarto lugar, quanto à circulação. Há FDC que nunca
circularam, há FDC que talvez tenham circulado não sendo possível afirmá-lo
categoricamente, há FDC que apresentam provas bastantes de circulação,
nomeadamente porque houve registo. E a circulação efectiva dessas cartas,
cartões ou inteiros postais, pode ter sido feita com os valores oficialmente
exigidos para o percurso ou com valores superiores, para o que não há qualquer
impedimento, ou inferiores.
Poderíamos ainda classificá-los pela intencionalidade:
"Há casos (...) de selos clássicos, inclusive o primeiro do mundo, o
célebre «Penny Black», que é conhecido sobre cartas de 1º dia, ou seja o 6
de Maio de 1840, Há outros menos raros, mas mesmo assim difíceis de conseguir.
Constituem jóias das colecções clássicas de alto nível. Por outro lado,
são os FDCs mais autênticos, nascidos da necessidade real de enviar uma
missiva e livre de qualquer suspeita de serem preparados para fins
filatélicos" (Jaschke, 2002, 15)
Falamos em selo mas podemos falar igualmente de bloco,
carteira ou selos de máquina, vulgarmente designados de etiquetas.
O primeiro FDC referenciado no catálogo de selos portugueses
data de 20 de Dezembro de 1949, acompanhando a série comemorativa do 16º
Congresso Internacional de História da Arte.
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Estas imagens foram
retiradas de (VRIES, 2002, 784). O primeiro pretende mostrar que Daves
Bennett, autor dos desenhos e cartonista de profissão, tem um estilo
muito próprio. No segundo pretende mostrar, junto com outros FDC que os
desenhos do sobrescrito pode ter «variedades». Note-se que no segundo
há selos dos EUA e de França, aplicando-se a ambos um carimbo americano.
Parece-nos estar-se no campo da fantasia, certamente muito legítima desde
que não se quera que seja filatelia. |
Será que o FDC acrescenta informação significativa em
relação ao selo?
Inevitável, mais que não seja porque o carimbo tem uma data
que informa do lançamento do selo. Se estamos perante um carimbo comemorativo a
sua imagem dá uma visão complementar do objecto da comemoração e se o
suporte contem qualquer tipo de impressão é de admitir que tem uma relação
de algum tipo com aquela. Em muitos casos há simultaneamente concordância
entre selo, carimbo e suporte, uma concordância de complementaridade.
Nesta perspectiva, podemos considerar que existem algumas
similitudes entre os FDCs e os Postais-Máximos: "Para terminar, e antes e
continuar a pormenorizar os regulamentos oficiais, referiremos outros aspectos
filatélicos que têm bastante similitudes com os Postais-Máximos e que são os
Sobrescritos de 1º Dia. (...) Perguntando a Juan A Casas sobre esta questão
ele respondeu-nos: «o coleccionismo de Sobrescritos de 1º Dia entrariam dentro
do que a Marcofilia, que na actualidade não tem regras definidas, pelo que os
coleccionadores estão bastante desiludidos. A Maximofilia tem o seu regulamento
e nada tem a ver com aqueles, a não ser que os sobrescritos e os postais levam
um selo e um carimbo. (...) Os melhores sobrescritos são os que têm selos e
carimbo com relação. Por outro lado a vinheta dos sobrescritos, que tão
apreciada é pelos coleccionadores, não têm qualquer interesse para os jurados
temáticos, que preferem o sobrescrito sem vinheta, isto é, em branco e
circulado." (Rodríguez, 1998)
Existem algumas similitudes mas também algumas diferenças,
para além das resultantes dos materiais de suporte. Nos FDCs há uma
concordância de data muito mais restritiva: não basta que o carimbo
corresponda à data de vigência da circulação do selo, é necessário que
seja do primeiro dia de circulação. Simultaneamente há uma total
permissividade em relação ao local. Qualquer serve, embora muitos
coleccionadores prefiram que haja uma relação entre o local do carimbo e o
acontecimento comemorado: "2. O que é o Primeiro Dia de Emissão? O
Primeiro Dia de Emissão é o primeiro dia que um determinado selo é posto à
venda. Esta data pode ter um significado especial no assunto retratado no selo.
3. O que é a Cidade de Emissão? Cidade do Primeiro Dia? A Cidade de Emissão
é a cidade e o estado actual em que o selo é emitido e posto à venda para o
público. Frequentemente esta cidade tem um significado especial no assunto
reflectido no selo" (AFDCS).
Recordemos, no entanto, a questão colocada: "Será que
o FDC acrescenta informação significativa em relação ao selo?"
Significa isto que estamos a tomar como referência para análise dos FDCs o
selo. Se estamos a falar de filatelia não podemos centrar a nossa atenção
senão no documento que prova um pagamento para circulação. Tomar como
referência fundamental os desenhos colocados sobre os sobrescritos já pouco
tem a ver com filatelia. Poderá ser arte postal, poderá ser qualquer outra
coisa cuja designação ainda está por inventar, mas não será o que até
agora se tem entendido por filatelia.
Partindo do nosso ponto de vista de que todas as formas e
conteúdos filatélicos são válidos desde que tal contribua para o bem-estar
de quem os usa, de que a filatelia visa essencialmente servir os homem no seu
prazer, na sua cultura e no seu relacionamento mútuo, nada há a objectar ao
coleccionismo de FDC, seja de forma autónoma, seja integrando-os nas mais
diversas colecções.
Muitos coleccionadores têm dedicado atenção aos
Sobrescritos do Primeiro Dia, quer integrando-os nas suas diversas colecções,
quer dedicando-lhes uma atenção muito especial, como o demonstram os clubes
especificamente dirigidos ao seu coleccionismo.
No entanto não tem sido esse o entendimento das
organizações filatélicas, não é isso que consta dos regulamentos das
exposições. Na História Postal nada têm a dizer porque não são peças
circuladas dentro da normalidade. Na Filatelia Clássica colocam-se as mesmas
reticências. Na Filatelia Temática são malvistos: "É certo que a
ilustração (não filatélica por definição) que figura nestes documentos é
mais incómoda que útil numa colecção temática; para a colocação da
obliteração é preferível utilizar um sobrescrito normal. Se não for
possível evitar esta ilustração é pelo menos possível dissimulá-la na
montagem" (MIGOUX, 1995, 91)
E, no entanto, apesar desta rejeição oficial dos FDC vai-se
agora ventilando a ideia de que poderá haver nas exposições uma classe
dedicada aos Sobrescritos do Primeiro Dia. Afinal poderão a curto prazo
vingarem-se do desprezo a que foram devotados e obterem lugar nas vaidades das
elites.
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Sobrescrito do Primeiro Dia com o bloco dos 500 anos da
descoberta do Brasil. Se os selos e os selos do bloco são iguais nada
justifica esta edição. Seguindo a tradição dos correios nos últimos
ano o FDC com o bloco foi emitido com carimbos de Lisboa, Porto, Coimbra,
Évora, Faro, Funchal e Ponta Delgada, assim como o FDC com os selos.
Observe que o bloco não deixa qualquer espaço para escrever o nome do
destinatário, a não ser que se escreva no próprio bloco. É um absurdo
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FDC do 4º Centenário da Fundação da Universidade de
Évora, circulado, em sobrescrito normal. O carimbo do Estoril, no verso,
com a data de 19.07.1960 confirma a circulação, embora esta se tenha
feito com um valor nominal superior ao necessário.
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Este FDC do Canada é interessante pela complementaridade
que apresenta entre os três elementos. O simbolismo do selo do Ano
Internacional da Criança é artisticamente representado na imagem em
tecido que é colocada no lado esquerdo do sobrescrito. Canadá foi dos
poucos países que não colocou o «emblema» do Ano Internacional da
Criança no próprio selo, pelo que o carimbo traz uma informação
adicional. É um FDC de iniciativa privada. O oficial tem uma imagem
diferente.
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Como se compreende esta eventual mudança de postura, caso se
venha a verificar?
Será possível admitir que resulta do reconhecimento dum
erro anteriormente assumido. Mas não parece ser essa a razão. Se assim fosse
muitas alterações teriam que ser feitas: por exemplos, como se justifica que a
Marcofilia não tenha autonomia expositiva? como se explica que haja o
reconhecimento da Aerofilatelia e Astrofilatelia e não o haja do correio
marítimo? Se assim fosse estaríamos perante um dinamismo da Federação
Internacional de Filatelia (FIP) que em mais nada se nota.
É fácil de encontrarmos a justificação se olharmos para o
comportamento das administrações postais: durante anos sucessivos emitiram
toneladas de FDCs, desacreditando estes. Tirando raras excepções fabricam
peças de 1º Dia durante meses ou anos. Tirando raras excepções a localidade
do carimbo nada tem a ver com o acontecimento comemorado, inventando-se sempre
novas cidades para permanentemente se produzirem FDCs. Muitas vezes os FDCs têm
formatos que torna inadequada a sua normal circulação.
E porque assim se comportaram e comportam, as
administrações postais e os comerciantes, estão a abarrotar de FDCs. Basta ir
a uma feira, a uma loja, a um leilão na Internet para se constatar isso mesmo.
A oferta é muitíssimo maior que a procura, até porque esta exige qualidade e
aquela só olha para os cifrões. Os estoques não se escoam, nem quase dados.
Logo a FIP, solicita a tais problemas, vem tentar criar artificialmente um novo
estímulo à procura.
Sejamos bem claros.
Nada temos contra os Sobrescritos do Primeiro Dia. Muitos
deles estão nas nossas colecções.
O que não podemos concordar é que os desvarios da oferta
sejam mais uma vez pagos pelos coleccionadores, provavelmente pelos mais
incautos.
BIBLIOGRAFIA
AFDCS, American First Day Cover Society,
http://www.afdcs.org/, http://www.hpfdc.com/
AUROUSSEAU, Henri (1997), "..." Timbroscopie
(nº 149, Set. 1997)
JASCHKE, Karl Lothar, "Os envelopes de Primeiro
Dia", Sociedade Philatelica Paulista, Junho 2002
MAGALHÃES, Miguel Rodrigues de (2002), "F.D.C.’s
First day covers = Envelopes de 1º dia", Sociedade Philatelica
Paulista, Junho 2002
MIGOUX, Robert, La Philatélie Thématique, 1995,
Éditions GIP
PIMENTA, Carlos, A Filatelia em Portugal,
http://www.caleida.pt/filatelia, "Glossário"
RODRÍGUEZ, José R. (1998), "Maximofilia", El
Eco (Nº 1050, Fev. 1998)
VRIES, Lloyd de, "First day covers: Collecting By
Cachetmaker", American Philatelist Vol. 116, nº 8, Setembro 2002