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Nº 110
2002/10


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 FDC - OS MALDITOS

Amigus Philatelicus

 

FDC esteticamente bastante interessante em que a imagem do sobrescrito, o carimbo e os selos surgem como complementares. O facto do carimbo comemorativo de primeiro dia ser da Gafanha da Nazaré faz todo o sentido, associando o motivo dos selos ao local do carimbo.
Infelizmente, tal como se apresenta, nunca poderia circular porque não haveria local para escrever o nome e endereço do destinatário. No dia em que se escrevem estas linhas continua disponível para venda o FDC desta série, embora não seja possível escolher o local do carimbo.

 

Os sobrescritos do primeiro dia são, como todos sabemos, peças filatélicas que comportam um selo e um carimbo, sendo essencial que a data deste corresponda ao primeiro dia de circulação do selo. Porque a data é fundamentalíssima, e a generalização dos FDCs (First day covers como têm sido consagrado pela generalização da terminologia inglesa) está associada à correspondente vulgarização das emissões de selos comemorativos. Nestes a data aparece muitas vezes associada ao acontecimento comemorado e pode ser determinada com rigor.

Selo e carimbo datador, muitas vezes um carimbo concebido exclusivamente para a data de lançamento, com data do primeiro dia de circulação, eis os elementos constitutivos do FDC.

Esta classificação genérica engloba uma multiplicidade de situações.

Em primeiro lugar, quanto ao suporte. Embora a designação se refira a sobrescritos, caso estejamos perante um cartão que comporta os referidos selos e carimbo ou perante um inteiro postal com carimbo de data do primeiro dia de circulação podemos considerar estar perante a mesma realidade.

Em segundo lugar, quanto à origem. A sua criação tanto pode resultar da iniciativa do coleccionador, de comerciantes, da administração postal ou de qualquer outra instituição.

Em terceiro lugar, quanto à forma. Ora se opta por um sobrescrito ou cartão branco onde se coloca o selo e o carimbo datador, ora se produz um material de suporte que pelas suas imagens acrescenta nova informação sobre o evento comemorado. Ora essa informação adicional é produzida em série ora estamos perante um trabalho de artesanato, quiçá artístico, único. Também o carimbo utilizado pode ser comemorativo (devendo corresponder ao evento) ou não.

Em quarto lugar, quanto à circulação. Há FDC que nunca circularam, há FDC que talvez tenham circulado não sendo possível afirmá-lo categoricamente, há FDC que apresentam provas bastantes de circulação, nomeadamente porque houve registo. E a circulação efectiva dessas cartas, cartões ou inteiros postais, pode ter sido feita com os valores oficialmente exigidos para o percurso ou com valores superiores, para o que não há qualquer impedimento, ou inferiores.

 

Sobrescritos do Primeiro Dia dos EUA em que os sobrescritos são pintados à mão por artistas. Podemos considerar que estamos perante exemplos do que muitos designam por "arte postal". Retirados de um dos sites indicados na bibliografia

 

Poderíamos ainda classificá-los pela intencionalidade: "Há casos (...) de selos clássicos, inclusive o primeiro do mundo, o célebre «Penny Black», que é conhecido sobre cartas de 1º dia, ou seja o 6 de Maio de 1840, Há outros menos raros, mas mesmo assim difíceis de conseguir. Constituem jóias das colecções clássicas de alto nível. Por outro lado, são os FDCs mais autênticos, nascidos da necessidade real de enviar uma missiva e livre de qualquer suspeita de serem preparados para fins filatélicos" (Jaschke, 2002, 15)

Falamos em selo mas podemos falar igualmente de bloco, carteira ou selos de máquina, vulgarmente designados de etiquetas.

O primeiro FDC referenciado no catálogo de selos portugueses data de 20 de Dezembro de 1949, acompanhando a série comemorativa do 16º Congresso Internacional de História da Arte.

 

Estas imagens foram retiradas de (VRIES, 2002, 784). O primeiro pretende mostrar que Daves Bennett, autor dos desenhos e cartonista de profissão, tem um estilo muito próprio. No segundo pretende mostrar, junto com outros FDC que os desenhos do sobrescrito pode ter «variedades». Note-se que no segundo há selos dos EUA e de França, aplicando-se a ambos um carimbo americano. Parece-nos estar-se no campo da fantasia, certamente muito legítima desde que não se quera que seja filatelia.

 

Será que o FDC acrescenta informação significativa em relação ao selo?

Inevitável, mais que não seja porque o carimbo tem uma data que informa do lançamento do selo. Se estamos perante um carimbo comemorativo a sua imagem dá uma visão complementar do objecto da comemoração e se o suporte contem qualquer tipo de impressão é de admitir que tem uma relação de algum tipo com aquela. Em muitos casos há simultaneamente concordância entre selo, carimbo e suporte, uma concordância de complementaridade.

Nesta perspectiva, podemos considerar que existem algumas similitudes entre os FDCs e os Postais-Máximos: "Para terminar, e antes e continuar a pormenorizar os regulamentos oficiais, referiremos outros aspectos filatélicos que têm bastante similitudes com os Postais-Máximos e que são os Sobrescritos de 1º Dia. (...) Perguntando a Juan A Casas sobre esta questão ele respondeu-nos: «o coleccionismo de Sobrescritos de 1º Dia entrariam dentro do que a Marcofilia, que na actualidade não tem regras definidas, pelo que os coleccionadores estão bastante desiludidos. A Maximofilia tem o seu regulamento e nada tem a ver com aqueles, a não ser que os sobrescritos e os postais levam um selo e um carimbo. (...) Os melhores sobrescritos são os que têm selos e carimbo com relação. Por outro lado a vinheta dos sobrescritos, que tão apreciada é pelos coleccionadores, não têm qualquer interesse para os jurados temáticos, que preferem o sobrescrito sem vinheta, isto é, em branco e circulado." (Rodríguez, 1998)

Existem algumas similitudes mas também algumas diferenças, para além das resultantes dos materiais de suporte. Nos FDCs há uma concordância de data muito mais restritiva: não basta que o carimbo corresponda à data de vigência da circulação do selo, é necessário que seja do primeiro dia de circulação. Simultaneamente há uma total permissividade em relação ao local. Qualquer serve, embora muitos coleccionadores prefiram que haja uma relação entre o local do carimbo e o acontecimento comemorado: "2. O que é o Primeiro Dia de Emissão? O Primeiro Dia de Emissão é o primeiro dia que um determinado selo é posto à venda. Esta data pode ter um significado especial no assunto retratado no selo. 3. O que é a Cidade de Emissão? Cidade do Primeiro Dia? A Cidade de Emissão é a cidade e o estado actual em que o selo é emitido e posto à venda para o público. Frequentemente esta cidade tem um significado especial no assunto reflectido no selo" (AFDCS).

Recordemos, no entanto, a questão colocada: "Será que o FDC acrescenta informação significativa em relação ao selo?" Significa isto que estamos a tomar como referência para análise dos FDCs o selo. Se estamos a falar de filatelia não podemos centrar a nossa atenção senão no documento que prova um pagamento para circulação. Tomar como referência fundamental os desenhos colocados sobre os sobrescritos já pouco tem a ver com filatelia. Poderá ser arte postal, poderá ser qualquer outra coisa cuja designação ainda está por inventar, mas não será o que até agora se tem entendido por filatelia.

 

Partindo do nosso ponto de vista de que todas as formas e conteúdos filatélicos são válidos desde que tal contribua para o bem-estar de quem os usa, de que a filatelia visa essencialmente servir os homem no seu prazer, na sua cultura e no seu relacionamento mútuo, nada há a objectar ao coleccionismo de FDC, seja de forma autónoma, seja integrando-os nas mais diversas colecções.

Muitos coleccionadores têm dedicado atenção aos Sobrescritos do Primeiro Dia, quer integrando-os nas suas diversas colecções, quer dedicando-lhes uma atenção muito especial, como o demonstram os clubes especificamente dirigidos ao seu coleccionismo.

No entanto não tem sido esse o entendimento das organizações filatélicas, não é isso que consta dos regulamentos das exposições. Na História Postal nada têm a dizer porque não são peças circuladas dentro da normalidade. Na Filatelia Clássica colocam-se as mesmas reticências. Na Filatelia Temática são malvistos: "É certo que a ilustração (não filatélica por definição) que figura nestes documentos é mais incómoda que útil numa colecção temática; para a colocação da obliteração é preferível utilizar um sobrescrito normal. Se não for possível evitar esta ilustração é pelo menos possível dissimulá-la na montagem" (MIGOUX, 1995, 91)

E, no entanto, apesar desta rejeição oficial dos FDC vai-se agora ventilando a ideia de que poderá haver nas exposições uma classe dedicada aos Sobrescritos do Primeiro Dia. Afinal poderão a curto prazo vingarem-se do desprezo a que foram devotados e obterem lugar nas vaidades das elites.

 

Sobrescrito do Primeiro Dia com o bloco dos 500 anos da descoberta do Brasil. Se os selos e os selos do bloco são iguais nada justifica esta edição. Seguindo a tradição dos correios nos últimos ano o FDC com o bloco foi emitido com carimbos de Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Faro, Funchal e Ponta Delgada, assim como o FDC com os selos.
Observe que o bloco não deixa qualquer espaço para escrever o nome do destinatário, a não ser que se escreva no próprio bloco. É um absurdo

 

 

FDC do 4º Centenário da Fundação da Universidade de Évora, circulado, em sobrescrito normal. O carimbo do Estoril, no verso, com a data de 19.07.1960 confirma a circulação, embora esta se tenha feito com um valor nominal superior ao necessário.

 

Este FDC do Canada é interessante pela complementaridade que apresenta entre os três elementos. O simbolismo do selo do Ano Internacional da Criança é artisticamente representado na imagem em tecido que é colocada no lado esquerdo do sobrescrito. Canadá foi dos poucos países que não colocou o «emblema» do Ano Internacional da Criança no próprio selo, pelo que o carimbo traz uma informação adicional. É um FDC de iniciativa privada. O oficial tem uma imagem diferente.

 

Como se compreende esta eventual mudança de postura, caso se venha a verificar?

Será possível admitir que resulta do reconhecimento dum erro anteriormente assumido. Mas não parece ser essa a razão. Se assim fosse muitas alterações teriam que ser feitas: por exemplos, como se justifica que a Marcofilia não tenha autonomia expositiva? como se explica que haja o reconhecimento da Aerofilatelia e Astrofilatelia e não o haja do correio marítimo? Se assim fosse estaríamos perante um dinamismo da Federação Internacional de Filatelia (FIP) que em mais nada se nota.

É fácil de encontrarmos a justificação se olharmos para o comportamento das administrações postais: durante anos sucessivos emitiram toneladas de FDCs, desacreditando estes. Tirando raras excepções fabricam peças de 1º Dia durante meses ou anos. Tirando raras excepções a localidade do carimbo nada tem a ver com o acontecimento comemorado, inventando-se sempre novas cidades para permanentemente se produzirem FDCs. Muitas vezes os FDCs têm formatos que torna inadequada a sua normal circulação.

E porque assim se comportaram e comportam, as administrações postais e os comerciantes, estão a abarrotar de FDCs. Basta ir a uma feira, a uma loja, a um leilão na Internet para se constatar isso mesmo. A oferta é muitíssimo maior que a procura, até porque esta exige qualidade e aquela só olha para os cifrões. Os estoques não se escoam, nem quase dados. Logo a FIP, solicita a tais problemas, vem tentar criar artificialmente um novo estímulo à procura.

 

Sejamos bem claros.

Nada temos contra os Sobrescritos do Primeiro Dia. Muitos deles estão nas nossas colecções.

O que não podemos concordar é que os desvarios da oferta sejam mais uma vez pagos pelos coleccionadores, provavelmente pelos mais incautos.

 

BIBLIOGRAFIA

AFDCS, American First Day Cover Society, http://www.afdcs.org/, http://www.hpfdc.com/

AUROUSSEAU, Henri (1997), "..." Timbroscopie (nº 149, Set. 1997)

JASCHKE, Karl Lothar, "Os envelopes de Primeiro Dia", Sociedade Philatelica Paulista, Junho 2002

MAGALHÃES, Miguel Rodrigues de (2002), "F.D.C.’s First day covers = Envelopes de 1º dia", Sociedade Philatelica Paulista, Junho 2002

MIGOUX, Robert, La Philatélie Thématique, 1995, Éditions GIP

PIMENTA, Carlos, A Filatelia em Portugal, http://www.caleida.pt/filatelia, "Glossário"

RODRÍGUEZ, José R. (1998), "Maximofilia", El Eco (Nº 1050, Fev. 1998)

VRIES, Lloyd de, "First day covers: Collecting By Cachetmaker", American Philatelist Vol. 116, nº 8, Setembro 2002


 

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