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Nº 104
2002/03


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Os Animais e seus Símbolos Antagónicos

Jean-Pierre Mangin
Presidente da Academia Europeia de Filatelia
Membro da Academia Portuguesa de Filatelia


Fig. 1

Fig. 2

No número 98 do mês de Abril de 2001 referimos longamente os diferentes síbolos de que os animais são portadores. Vimos que desde tempos imemoriais, por antropomorfismo, e com base nos traços de caracter tradicionalmente atribuídos aos animais, os homens, os povos, têm-se identificado com algum animal particular e tentado captar em seu proveito toda a força simbólica associada a esse animal.

Mas convém não esquecer que o que é válido num local ou numa certa época pode ser totalmente diferente noutras épocas ou locais.


Fig. 3

É o que nos propomos agora demonstrar com o estudo da simbólica, isto é, do conjunto dos símbolos associados a três animais, a saber, o dragão, a serpente e o cavalo.


Fig. 4 - Par de selos de 2 candarins do correio local de Shanghai (1985).

O DRAGÃO

Para os cristãos o dragão é considerado como um símbolo demoníaco, a incarnação do Anticristo. São Jorge a vencer o dragão é a representação iconográfica clássica desta sensibilidade (Fig. 1).

Pelo contrário, na tradição celta, o dragão é um possante símbolo protector. Esta tradição tem sido perpetuada até aos nossos dias no País de Gales (Fig. 2 e 3).

Mas é sobretudo na China que melhor se manifesta a oposição entre a análise dos símbolos associados ao dragão na tradição judaico-cristã e a tradição popular no Extremo-Oriente.

Aí o dragão é considerado como o símbolo essencial do todo poderoso imperador.

Aliás as primeiras emissões de Shanghai (Fig. 4) e da China Imperial (Fig. 5) têm um dragão como motivo principal.

A fim de melhor analisar os símbolos que constituem a simbólica da emissão Tipo “Grande Dragão” fizemos um desenho (Fig. 6) que mostra que o dragão representado é um dragão do ar chamado “LUNG”. É o tipo de dragão mais popular na China.


Fig. 5 - Carta de 1885 expedida de Pekin para os USA. À partida foi franquiada com um selo de 3 candarins do Tipo “Grande Dragão”. Trata-se da primeira emissão oficial dos Correios Imperiais da China (Imperial Customs Post). Esta carta transitou pela Repartição Japonesa de Shanghai.

É um animal fantástico em cuja composição nada é deixado ao acaso. Segundo eminentes sinólogos é constituído pela soma das partes de maior simbolismo dos animais mais frequentemente encontrados na vida quotidiana dos chineses, a saber:

- a cabeça do camelo, símbolo da sobriedade;

- os chifres do gamo, que, como qualquer cervídeo que perde periodicamente os seus chifres que voltam a crescer posteriormente, é muitas vezes assimilado à árvore da vida, daí ser o símbolo da vitalidade. E de tal forma que os cervídeos do Zoo de Pekin têm de ser protegidos a fim de evitar que lhes cortem os chifres acabados de crescer, aos quais, uma vez secos e reduzidos a pó, os chineses atribuem propriedades afrodisíacas;

- os olhos do coelho, símbolo da fecundidade;

- as orelhas da vaca, símbolo da abundância;

- o pescoço da serpente, símbolo da estabilidade e da paz para os orientais;

- o ventre da rã, que era utilizada na China antiga para obter a chuva. O principal simbolismo da rã está portanto em relação directa com o seu elemento natural: a água indispensável à vida;

- as escamas da carpa, peixe sagrado que simboliza a coragem e a perseverança, símbolo da virilidade a carpa é o símbolo dos rapazes;

- as garras do falcão, símbolo solar, sempre ascencional, no plano físico, intelectual e moral;

- as patas do tigre, animal caçador que na Asia simboliza o poder temporal forte adquirido pelas armas.


Fig. 6 - Desenho de um selo do tipo “Grande Dragão”

Além disso o dragão protege a “pérola da noite”, que é suposta possuir virtudes miraculosas contra a doença. Os dois ramos que saem da “pérola da noite” simbolizam os raios luminosos. O dragão é o seu guardião.

A partir da discrição de todos os símbolos associados ao dragão é fácil compreender que este animal fabuloso é a resultante de uma muito longa tradição, de contos, lendas e tradições populares.



Fig. 7 - Envelope patriótico emitido em 1862 pelos Nortistas. Os Sulistas, simbolo do mal, são representados por uma serpente cascavel dominada por uma águia de cabeça branca, desde 20 de Junho de 1782 adoptada pelo Congresso como símbolo oficial dos Estados Unidos.

Fig. 8 - Inteiro Postal do México, ilustrado com uma águia segurando uma serpente no bico. É o símbolo nacional do México. Representa a dualidade entre o Céu e a Terra e o combate travado entre o Bem e o Mal. Este símbolo tem origem numa lenda que conta que a antiga cidade de Technotilan, a actual Cidade do México, foi fundadda no próprio local em que os Aztecas viram uma águia gigantesca levantar voo com uma serpente no bico. Para os fãs da zoologia a águia representada é um CARANCHO, nome local da CARACARA.

A SERPENTE

Os cristãos atribuem à serpente uma simbólica análoga à que atribuem ao dragão. Para eles a serpente é o símbolo do mal sob todas as suas formas. Numerosas peças filatélicas refletem essa crença.


Fig. 9 - Selo para encomendas postais dos “Messagers Nationaux” (1890). O desenho deste selo para encomendas postais transportadas dentro de Paris representa uma roda de triciclo e um caduceu. Este serviço de transporte por ciclistas era, com efeito, especializado na entrega de pequenas encomendas das farmácias intra-muros.

A serpente símbolo da paz para os Gregos e para os Hindus.


Fig. 10 - Caduceu dos médicos.

É evidente que se os farmacêuticos e os médicos adoptaram a serpente nos seus caduceus é porque este animal representava para eles algo diferente de um símbolo maléfico.


Fig. 11 - Inteiro Postal de GWALIOR (Estado Indiano).

Tal porvém da mitologia grega que conta que Hermes, tendo encontrado na Arcadia duas serpentes a lutar, separou-as com a bengala em torno da qual elas se enrolaram apaziguadas. Os Gregos derivaram daí o caduceu, símbolo da paz. Notar que se o caduceu dos farmacêuticos tem duas serpentes, o dos médicos tem uma única (Fig. 10).

As serpentes na religião hinduísta são consideradas, juntamente com os dois grandes Deuses Védicas VISHU e CIVA, como transportadoras do mundo ao qual asseguram a estabilidade. Daí a simbólica da paz que lhes está associada nesta religião.


Fig. 12 - Retrato de Faraó com o “Némès”. Este está ornado com a deusa Cobra ou “URAEUS”. Para os antigos Egípcios a cobra era o símbolo do Alto Egipto. A deusa “URAEUS” era associada às representações do faraó, a quem tinha por missão proteger.

É este símbolo da paz e da estabilidade, trazida pela protecção da coroa britânica, que se quis representar neste Inteiro Postal de GWALIOR, associando duas cobras à efígie da Rainha Vitória (Fig. 11).



Fig. 13 - Pégaso, o cavalo mágico.

O CAVALO

Uma crença ancorada na memória dos povos europeus associa o cavalo às trevas do mundo subterrâneo. Por consequência, na sua qualidade de divindade soberana, o cavalo conhece os caminhos da água e é suposto, tal como Pégaso, o cavalo mágico, ter o dom de ser capaz de fazer brotar fontes batendo no solo com os cascos (Fig. 13).


Fig. 14 - O carro de Neptuno.

Senhor das águas subterrâneas, o cavalo pode também simbolizar tudo o que se relaciona com a água em geral. Assim é o cavalo que puxa o carro de Neptuno, o Deus do Mar (Fig. 14). São também cavalos que Britânia escolheu para puxar o seu carro que emerge dos oceanos (Fig. 15), sobre os quais estão disseminadas as suas possessões.


Fig. 15 - O carro de Britânia

Animal das trevas para os povos europeus, o cavalo está associado a símbolos totalmente diferentes nas mitologias grega e hinduista. Na origem Chotiniano, o cavalo torna-se pouco a pouco ouraniano, de subterrâneo torna-se francamente solar.

Para os antigos gregos eram cavalos que puxavam o carro do sol e que lhe estavam consagrados. O cavalo era atributo de Apolo na sua qualidade de condutor do carro solar (Fig. 16).


Fig. 16 - Apolo e o carro solar

O mesmo se passa na tradição hinduísta, onde um cavalo de sete cabeças puxa o carro do sol. É o que surge em diversas emissões do Estado do JAIPUR (Fig. 17).


Fig. 17 - O cavalo de sete cabeças e o carro do sol

Limitamo-nos voluntariamente ao dragão, à serpente e ao cavalo, para demonstrar a existência de símbolos totalmente opostos na simbólica associada a um mesmo animal, em função das épocas, das religiões ou dos locais em estudo. Mas esta lista está longe de ser exaustiva. Apelamos portanto a uma grande prudência antes de afirmar que um animal reflete um dado símbolo e unicamente esse símbolo. É a esta mensagem de prudência que o nosso estudo pretendia chegar.


BIBLIOGRAFIA
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain, «Dictionnaire des Symboles», Robert Laffont
IRELAND, Philip W., «The Large Dragon», Editions Robson Lowe Ltd


 

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