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Nº 101
2001/12


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Filatelia Temática
Um tema a debater

Luis Eugénio Ferreira
Académie Européenne de Philatélie
1

Princípios da filatelia temática 2
Primeiro: a filatelia temática é e deverá continuar a ser considerada como uma verdadeira filatelia.
Segundo: a filatelia temática não é limitada pelo tempo nem pelo espaço.
Terceiro: a filatelia temática deverá recorrer a todas as fontes filatélicas.
Quarto: os documentos filatélicos apresentados devem ter uma ligação certa e precisa com o tema em estudo.
Quinto: é necessário encontrar um equilíbrio justo entre as fontes filatélicas e as necessidades temáticas.

Procuremos definir, como primeira abordagem, a que motivações corresponde, a que fundamentos obedece, ou que problemas resolve (ou não resolve) a colecção dos elementos postais, de acordo com o critério convencional de um tema.

Em primeiro lugar e isso será ainda do domínio da história, diremos que tal possibilidade foi criada pelo aparecimento de vinhetas postais que, para lá das alusões indispensáveis à sua função (nome do país emissor, valor, indicação específica da sua finalidade), apresenta como estrutura formal, a alusão a figuras, acontecimentos, símbolos, etc. em representações gráficas diversas, que se diversificariam à exaustão.

Acreditamos que esses primeiros modelos tenham obedecido a razões históricas (para lá das primeiras emissões que nos induzem a conjecturas de outra ordem). No entanto, a partir desses primeiros ensaios, protagonizados pelo célebre selo do Peru, emitido em homenagem à inauguração do caminho de ferro de Callao, a série Colombo dos Estados Unidos ou ainda a série portuguesa de D. Henrique, a inserção de gravuras e imagens viria a tomar-se em breve, prática corrente das administrações postais.

Numa segunda fase, tais figurinos viriam a desprender-se de qualquer motivação factual para se preocuparem com a imagem gráfica da vinheta segundo critérios aleatórios sem nada a ver com a realidade objectiva.

GREV / Article 2
2.1The limit of the frame space allocated at exhibitions … does not normally allow the collector to display the entire collection. Therefore, the collector must select suitable material, which will ensure continuity and understanding of the subject and explain relevant aspects of knowledge and condition.

SREV / Article 4
4.3 Condition and Rarity
The criteria of "Condition and Rarity" require an evaluation of the quality of the displayed material considering the standard of the material that exists for the chosen subject, the rarity and the relative difficulty of acquisition of the selected material.

SREV / Article 3
3.2. Thematic Treatment
The treatment of a thematic exhibit comprises the structure of the work (title and plan) and the elaboration of each point of that structure (development).
3.2.1 Title and Plan
The title with any subtitle defines the scope of the exhibit.
The plan defines the structure of the exhibit and its subdivisions and covers all major aspects relevant to the title. It should be entirely structured according to thematic criteria. The order of the main chapters and their subdivisions should demonstrate the development of the plan rather than list its main aspects.
The title and the plan must be presented on a page at the beginning of the exhibit, written in one of the official FIP languages.
3.2.2. Development
The development means the elaboration of the theme in depth, aiming to achieve an arrangement of the material fully compliant with the plan.
The elaboration utilises only the thematic information, postally authorised, available from:
· the purpose of issue or use of the item
· the primary and secondary elements of the design of the item
· other postal characteristics.
Such elaboration requires:
· a thorough knowledge of the chosen theme
· a high degree of philatelic knowledge
· a thematic text, to ensure the necessary thematic links and to provide thematic details, whenever needed.
3.2.3 Innovation
Innovation is shown by the
· introduction of new themes, or
· new aspects of an established or known theme, or
· new approaches for known themes, or
· new application of material.
Innovation may refer to all components of Treatment.

SREV / Article 4
4.2. Knowledge, Personal Study and Research
The criterion for Knowledge, Personal Study and Research requires the evaluation of the thematic and philatelic aspects of the exhibit.
4.2.1 Thematic Knowledge, and its related Personal Study and Research will be evaluated considering the
· appropriateness, conciseness and correctness of thematic text
· correct thematic use of the material
· presence of new thematic findings for the theme.
4.2.2 Philatelic Knowledge, Personal Study and Research will be evaluated considering the
· full compliance with the rules of postal philately
· presence of the widest possible range of postal philatelic material and its balanced use
· appropriateness of postal documents
· appropriateness and correctness of philatelic text, when required
· presence of philatelic studies and related skilful use of important philatelic material.

SREV / Article 2
Competitive Exhibits - A thematic exhibit develops a theme according to a plan, as defined under 3.2.1, demonstrating thematic and philatelic knowledge through the items chosen.
Such knowledge should result in the best possible selection and arrangement of the material and the accuracy of the relevant thematic and philatelic text.

Cinquenta anos depois da criação do selo postal, o stock disponível de figurinos era já de tal ordem, que se tomava possível a sua catalogação por temas, de acordo com os mais diversos critérios. No momento actual é já quase possível catalogá-los por espécies, dentro de cada tema, tomando múltipla a possibilidade da sua utilização.

Tal volume e tal disponibilidade, se não são determinantes do coleccionismo temático, como solução proposta à actividade do coleccionador, são pelo menos os seus dois mais importantes e ricos elementos.

Num ângulo de visão diferente, mas convergindo de certo modo sobre o fenómeno da produção crescente e por vezes bem desordenada dos documentos postais, teremos a inviabilidade do seu coleccionamento total. O aparecimento precoce de raridades, o preço elevadíssimo de algumas séries ou selos, a progressão geométrica do seu crescimento, opunha-se à primitiva lógica do coleccionador universal, até ao momento em que o número de selos editados regionalmente, predisporia ao coleccionamento por grupos de país ou países, individualmente.

A colecção temática, limitando o espaço e a disponibilidade, vem conciliar a ambiguidade criada pelo conflito entre o critério da universalidade e o do espaço-limite em que a mesma se deverá conter.

É, digamos, uma fórmula complacente de se coleccionar todo o universo postal, dentro de um critério restritivo por convenção.

O terceiro ponto a que convém referir, nasce implícito do próprio coleccionamento. Diz respeito à motivação do coleccionador, à sua "praxis", liberto de toda e qualquer circunstância redutora. A motivação filatélica (não nos esqueçamos que o selo continua a ser o seu elemento material indispensável), resvala agora um pouco sobre o terreno da alienação, para se centrar sobre o tema em si mesmo, tomado agora como o seu objectivo fundamental.

Agora o selo não é mais um documento postal privado, que se colecciona pela sua razão histórico-documental, mas a peça acessória ilustrativa de um tema que se elegeu em obediência a um critério extrínseco à própria realidade que o gerou.

Esses critérios de escolha nascem de razões provindas da zona profunda da psicologia individual, e está por fazer a sua abordagem sistemática. Mas consideremos que entre as razões primárias se situa a profissão: o professor ou escritor coleccionará homens célebres ou escritores universais. O médico coleccionará temas ligados à saúde. O militar coleccionará armas, fardas, batalhas, e a lista prolongar-se-ia indefinidamente, Numa segunda ordem, colocaremos as colecções, sobretudo de jovens, obedecendo à classificação escolástica dos reinos da natureza. Depois, vêm os temas relacionados com determinados gostos estéticos ou sensibilidades, a pintura, por épocas ou escolas, a música, a arquitectura, etc. subdivididos ou não por critérios metodológicos; ou os "nus", admitamos ainda por razões estéticas. Numa fase mais elaborada das motivações, colocaremos os temas complexos, as grandes relacionações metafísicas ou histórico-filosóficas e aí deparamos com as sofisticadas colecções da mitologia como percursora da conquista do espaço (que conheceu a sua época), ou, por exemplo, a flor relacionada com as diferentes fases da vida do ser humano em sociedade. Etc. etc.

Não pretendemos mais que aflorar um problema que envolve grande grau de especialização e um estudo pormenorizado. Mas não quisemos deixar de lhe aludir directamente como uma, talvez a mais profunda, justificação do coleccionamento temático, conciliando de forma probatoriamente eficiente e alcançada, o gosto pelo coleccionamento das espécies postais (domínio da filatelia), com o gosto pelos elementos estéticos, científicos, naturalísticos (domínio da ciência, da técnica, da filosofia, enfim, do conhecimento humano com todas as suas implicações e consequências).

A filatelia surgirá deste modo, talvez como uma arma ou um elemento propedêutico de inestimável valor, mas daí nenhum mal resultará para a natureza da filatelia em si mesma. O uso que o homem faz da sua tecnologia, é sempre louvável, quando desse uso resulta o aperfeiçoamento social ou a prossecução dos seus altos valores.

Todavia consideramos que a filatelia documental, ligada à sua essência histórica, aí englobando os aspectos técnicos emergentes, chegaria bem, por si mesma, para justificar a actividade do seu coleccionamento, e então, reduziríamos o coleccionamento temático a uma actividade louvável, sem dúvida, mas sempre sob uma óptica didáctica, propedêutica, funcional.

As grandes exposições temáticas, não seriam mais exposições filatélicas no seu verdadeiro sentido, mas grandes temas ilustrados por vinhetas postais ou peças forjadas no âmbito postal.

E a verdade é que parece ter-se esgotado o grande ciclo da filatelia temática, tal como se tem vindo a conceber. Algumas exposições internacionais vêm dando lugar a colecções em que são admitidos documentos diversos, fora da área filatélica, desde que, obviamente possuam a adequação necessária ao desenvolvimento do tema. Ganha-se em profundidade e em objectividade científica, em detrimento da vertente filatélica. É assim. Tudo muda. Resta-nos refazer as nossas concepções neste domínio. Por isso continuo a afirmar que a Filatelia temática, é hoje, indubitavelmente, um tema a debater.



NOTAS:
1. Os extractos do MIGOUX, do GREV e do SREV são da responsabilidade da redacção. Em relação a estes dois últimos documentos informa-se que: (1) foram retirados do site da FIP; (2) sendo regulamentos não assumimos a responsabilidade da sua tradução para português.
2. Adaptado de Robert Migoux, La Philatélie Thématique, Editions G.I.P., Paris, 1995. Idem para o diagrama, traduzido.
GREV - General Regulations of the FIP for the Evaluation of Competitive Exhibits at FIP Exhibitions
SREV - Special Regulations for the Evaluation of Thematic Exhibts at FIP Exhibitons

 

 

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