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Procuremos definir, como primeira abordagem, a que motivações corresponde, a que fundamentos obedece, ou que problemas resolve (ou não resolve) a colecção dos elementos postais, de acordo com o critério convencional de um tema. Em primeiro lugar e isso será ainda do domínio da história, diremos que tal possibilidade foi criada pelo aparecimento de vinhetas postais que, para lá das alusões indispensáveis à sua função (nome do país emissor, valor, indicação específica da sua finalidade), apresenta como estrutura formal, a alusão a figuras, acontecimentos, símbolos, etc. em representações gráficas diversas, que se diversificariam à exaustão. Acreditamos que esses primeiros modelos tenham obedecido a razões históricas (para lá das primeiras emissões que nos induzem a conjecturas de outra ordem). No entanto, a partir desses primeiros ensaios, protagonizados pelo célebre selo do Peru, emitido em homenagem à inauguração do caminho de ferro de Callao, a série Colombo dos Estados Unidos ou ainda a série portuguesa de D. Henrique, a inserção de gravuras e imagens viria a tomar-se em breve, prática corrente das administrações postais. Numa segunda fase, tais figurinos viriam a desprender-se de qualquer motivação factual para se preocuparem com a imagem gráfica da vinheta segundo critérios aleatórios sem nada a ver com a realidade objectiva.
Cinquenta anos depois da criação do selo postal, o stock disponível de figurinos era já de tal ordem, que se tomava possível a sua catalogação por temas, de acordo com os mais diversos critérios. No momento actual é já quase possível catalogá-los por espécies, dentro de cada tema, tomando múltipla a possibilidade da sua utilização. Tal volume e tal disponibilidade, se não são determinantes do coleccionismo temático, como solução proposta à actividade do coleccionador, são pelo menos os seus dois mais importantes e ricos elementos. Num ângulo de visão diferente, mas convergindo de certo modo sobre o fenómeno da produção crescente e por vezes bem desordenada dos documentos postais, teremos a inviabilidade do seu coleccionamento total. O aparecimento precoce de raridades, o preço elevadíssimo de algumas séries ou selos, a progressão geométrica do seu crescimento, opunha-se à primitiva lógica do coleccionador universal, até ao momento em que o número de selos editados regionalmente, predisporia ao coleccionamento por grupos de país ou países, individualmente. A colecção temática, limitando o espaço e a disponibilidade, vem conciliar a ambiguidade criada pelo conflito entre o critério da universalidade e o do espaço-limite em que a mesma se deverá conter. É, digamos, uma fórmula complacente de se coleccionar todo o universo postal, dentro de um critério restritivo por convenção. O terceiro ponto a que convém referir, nasce implícito do próprio coleccionamento. Diz respeito à motivação do coleccionador, à sua "praxis", liberto de toda e qualquer circunstância redutora. A motivação filatélica (não nos esqueçamos que o selo continua a ser o seu elemento material indispensável), resvala agora um pouco sobre o terreno da alienação, para se centrar sobre o tema em si mesmo, tomado agora como o seu objectivo fundamental. Agora o selo não é mais um documento postal privado, que se colecciona pela sua razão histórico-documental, mas a peça acessória ilustrativa de um tema que se elegeu em obediência a um critério extrínseco à própria realidade que o gerou. Esses critérios de escolha nascem de razões provindas da zona profunda da psicologia individual, e está por fazer a sua abordagem sistemática. Mas consideremos que entre as razões primárias se situa a profissão: o professor ou escritor coleccionará homens célebres ou escritores universais. O médico coleccionará temas ligados à saúde. O militar coleccionará armas, fardas, batalhas, e a lista prolongar-se-ia indefinidamente, Numa segunda ordem, colocaremos as colecções, sobretudo de jovens, obedecendo à classificação escolástica dos reinos da natureza. Depois, vêm os temas relacionados com determinados gostos estéticos ou sensibilidades, a pintura, por épocas ou escolas, a música, a arquitectura, etc. subdivididos ou não por critérios metodológicos; ou os "nus", admitamos ainda por razões estéticas. Numa fase mais elaborada das motivações, colocaremos os temas complexos, as grandes relacionações metafísicas ou histórico-filosóficas e aí deparamos com as sofisticadas colecções da mitologia como percursora da conquista do espaço (que conheceu a sua época), ou, por exemplo, a flor relacionada com as diferentes fases da vida do ser humano em sociedade. Etc. etc. Não pretendemos mais que aflorar um problema que envolve grande grau de especialização e um estudo pormenorizado. Mas não quisemos deixar de lhe aludir directamente como uma, talvez a mais profunda, justificação do coleccionamento temático, conciliando de forma probatoriamente eficiente e alcançada, o gosto pelo coleccionamento das espécies postais (domínio da filatelia), com o gosto pelos elementos estéticos, científicos, naturalísticos (domínio da ciência, da técnica, da filosofia, enfim, do conhecimento humano com todas as suas implicações e consequências). A filatelia surgirá deste modo, talvez como uma arma ou um elemento propedêutico de inestimável valor, mas daí nenhum mal resultará para a natureza da filatelia em si mesma. O uso que o homem faz da sua tecnologia, é sempre louvável, quando desse uso resulta o aperfeiçoamento social ou a prossecução dos seus altos valores. Todavia consideramos que a filatelia documental, ligada à sua essência histórica, aí englobando os aspectos técnicos emergentes, chegaria bem, por si mesma, para justificar a actividade do seu coleccionamento, e então, reduziríamos o coleccionamento temático a uma actividade louvável, sem dúvida, mas sempre sob uma óptica didáctica, propedêutica, funcional. As grandes exposições temáticas, não seriam mais exposições filatélicas no seu verdadeiro sentido, mas grandes temas ilustrados por vinhetas postais ou peças forjadas no âmbito postal. E a verdade é que parece ter-se esgotado o grande ciclo da filatelia temática, tal como se tem vindo a conceber. Algumas exposições internacionais vêm dando lugar a colecções em que são admitidos documentos diversos, fora da área filatélica, desde que, obviamente possuam a adequação necessária ao desenvolvimento do tema. Ganha-se em profundidade e em objectividade científica, em detrimento da vertente filatélica. É assim. Tudo muda. Resta-nos refazer as nossas concepções neste domínio. Por isso continuo a afirmar que a Filatelia temática, é hoje, indubitavelmente, um tema a debater. ![]() NOTAS:
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