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Nº 101
2001/12


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As Primeiras Emissões de Bilhetes Postais da Índia Portuguesa: Contribuição para a sua história

Luís Frazão

Ismael Gracias, no §XXVII da sua Memória dos Correios da Índia Portuguesa escreve:

"Na tabela de portes internos fixada pelo governador Albuquerque em 6 de Outubro de 1879, incluíram-se os bilhetes postaes , marcando-se-lhes a taxa de 5 réis.

O administrador geral do correio, Manuel de Campos, instou por vezes pela introdução dos bilhetes postaes que já estavam em uso desde 1879 na Índia britânica e ainda em Damão, onde o correio era inglês; mas, não se tendo feito a acquisição de bilhetes adequados ao país, ficou largo tempo sem execução n'esta parte, a tabella de 1879.

Em Abril de 1882, chegando a este Estado e tomando posse o governador geral visconde de Paço D'Arcos, foi-lhe presente todo o processo relativo, e S.Ex.ª, no intuito de obter gravura cuidadosa e impressão nítida, pediu ao delegado britânico, Mr Arthur Travers Crawford mandasse lavrar na casa da moeda em Bombaim duas chapas para bilhetes postaes, do de 3 réis e 1 tanga, e tirar 25 mil e 5 mil exemplares respectivamente.

A requisição foi imediatamente satisfeita, e pela P.P de 14 de Novembro desse ano (1882), se mandou circular n'este Estado os bilhetes postaes de ¼ de tanga, de cor amarella, para o interior e Índia britânica- e de 1 tanga, cor azul, para a Europa."


Pela observação dos bilhetes que foram impressos, pode-se concluir que, nem a gravura foi cuidadosa nem a impressão nítida, o que aliado à fraca qualidade do papel empregue dá como resultado uns bilhetes de fraquíssima qualidade. É no entanto curioso que a impressão dos bilhetes postais destinados à franquia com o exterior serem de impressão mais cuidada do que a dos destinados ao consumo interior.


A P.P.Nº. 775 de 14 de Novembro diz :

N.º 775 - Attendendo ao que me foi proposto pelo administrador geral dos correios d'esta cidade, sobre a emissão de bilhetes postaes;
Attendendo a que, por decreto de 31 d'outubro de 1877, já se havia determinado este melhoramento; e a que a portaria d'este governo, n.° 655 de 6 d'outubro de 1879 havia tambem autorisado o seu uso neste Estado, o qual, porem, estava dependente da acquisição dos bilhetes respectivos, que só agora se receberam:
Hei por conveniente determinar que sejam postos em circulação neste Estado os bilhetes postaes de que acima se trata; os da côr amarella, pelo preço de um quarto de tanga ou 3 reis da nova moeda, e os da côr azul pelo de uma tanga.
As autoridades e mais pessoas, a quem o conhecimento e execução d'esta competir, assim o tenham entendido e cumpram.Palacio do governo geral no Cabo, 11 de novembro de 1882.
O Governador Geral, Visconde de Paço d'Arcos.

Seria interessante saber a data de entrada em circulação dos bilhetes postais na Índia, que pelo texto da portaria não se devia afastar muito do dia 15 de Novembro . A consulta dos B. O. da Índia não permitiu encontrar um aviso dos correios noticiando esta nova classe de correspondência, mas permitiu verificar, analisando os relatórios mensais enviados pelo Governador da praça de Diu, onde consta a rubrica do rendimento do correio, que os bilhetes postais fizeram aí a sua aparição em Dezembro de 1882,

Rendimento postal - Importou a quantia de 66 rupias, 3 tangas e 9 réis pelas seguintes verbas
Venda de estampilhas de sêllo.. 22:03.06,1/2
Idem de estampilhas postaes.... 30:09:041/2
Idem de bilhetes postaes....... 00:11:06
Multas de cartas por falta ou insufficiência de franquia....... 12:09:04

Existe no entanto um ponto a considerar; se atentarmos no texto da Portaria, assim como no que escreveu Ismael Gracias, verifica-se que a cor dos bilhetes "supostamente" recebidos, amarelos de ¼ de tanga e azuis de 1 tanga, não corresponde com a cor efectivamente utilizada, a saber de ¼ de tanga azuis e de 1 Tanga vermelhos.

As primeiras datas de circulação que conhecemos são de Maio de 1883, de que se mostram dois exemplos nas figuras abaixo.


Fig. 1 (a)


Fig. 1 (b)

Teriam os bilhetes sido fabricados nas cores encomendadas pelo governo da Índia, ou terão as cores sido "corrigidas", tendo como base as cores dos bilhetes postais da Índia inglesa, que eram de vermelho acastanhada para o de ¼ de anna (circulação interna), e azul para o de 1 anna de (circulação para a Europa.)

Que a primeira remessa de 30.000 bilhetes postais entrou em circulação, com cores diferentes das encomendadas, não merece dúvidas pois que, e citando de novo Ismael Gracias;


"Breve se manifestou vantajoso para o público e para o Estado o resultado colhido dessa inovação. Esgotaram-se em curto prazo os bilhetes recebidos, e pouco depois nos princípios de 1883, fez-se nova acquisição de mais 105.000 bilhetes postais."


No Boletim Oficial da Índia N.º 32 de 12 de Fevereiro de 1883, vêm publicado o seguinte ofício:

MINISTERIO DOS NEGOCIOS DA MARINHA E ULTRAMAR
DIRECÇÃO GERAL DO ULTRAMAR
N.º 3 - Illlm ° e Exm.º Sr - Encarrega-me sua ex.ª o ministro e secretario d'estado dos negocios da marinha e ultramar de -communicar a v. ex.ª que, em attencão ás rasões expostas no seu officio de 28 de junho ultimo, deve considerar approvada a resolução por v. ex.ª tomada de mandar gravar em Bombaim os bilhetes postaes; convindo porém que de futuro, quando houver necessidade de nova impressão dos ditos bilhetes se faça a requisiçao exactamente como se procede com relação ás estampilhas do correio e sêllos, a fim de se mandarem satisfazer taes requisições pela casa da moeda e papel sellado. Por essa occasião v. ex.ª dará as ordens que julgar convenientes para serem recolhidos os cunhos que actualmente se acham em Bombaim.
Deus guarde a v. ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios da marinha e ultramar, em .15 de janeiro de 1883 - Illm.° e Exm.° Sr. Governador geral do Estado da India.= O director geral, Francisco Joaquim da Costa .e Silva

Da leitura do documento acima pode-se concluir que o expediente utilizado pelo governo da Índia foi sancionado "a posteriori" pelo Ministro do Ultramar, alertando de imediato para a necessidade de não se repetir a prática e de recorrer à Casa da Moeda de Lisboa para futuras requisições. Ordena também o recolher dos cunhos enviados para Bombaim.

Não é claro se a recolha foi imediata e se não voltou a haver acquisição de bilhetes em Bombaim, como se poderia deduzir do ofício acima transcrito. Parece-nos que o intervalo de tempo que medeia entre a recepção deste ofício, que como vimos foi publicado a 12 de Fevereiro de 1883, e a data da recepção e entrada em circulação da emissão seguinte- Emissão de D. Luís -, e que decorreu já no ano de 1886, tornou certamente necessário voltar a fazer encomendas na Índia Inglesa.

Este suposição pode de certo modo ser confirmado pelo quadro do"Mappa do rendimento do correio relativo ao mês de Novembro do ano de 1885", que se apresenta em baixo, e onde se verifica que o valor total de bilhetes vendidos foi de 66 rupias e 10 tangas, ou seja aproximadamente 4.000 bilhetes por mês, admitindo terem-se vendido somente os da taxa de 3 réis; admitindo este valor chega-se a um consumo próximo dos 50.000/ano

ADMINISTRAÇÃO
GERAL DOS CORREIOS
Mappa do rendimento dos correios d'este Estado, do mez de novembro de 1885.

  Importancia
Estacões Das estampilhas vendidas Dos bilhetes postaes  vendidos Dos portes cobrados
Nova Goa 507:02:011/2 6:15:06 37:13:04 1/2
Mapuçá 232:01:06 3:02:00 21:10:03 1/2
Margão 258:05:05 1:08:06 13:08:08 1/2
Damão 93:14:00 46:02:00 10:15:00
Diu 79:15:00 - 3:08:00
Mormugão 35:08:00 4:08:00 13:12:03
Chinchinim 43:09:07 1/2 0:11:00 13:05:09
Pondá 19:08:01 1/2 1:09:06 8:05:04 1/2
Sanvordém 13:04:00 0:06:03 19:06:03
Calangute 10:00:00 - 8:13:03
Colvalle 9:03:00 0:00:06 5:04:09
Sanquelim 6:00:00 0:03:00 2:01:00
Vernã 5:02:06 0:03:00 3:02:09
Bicholim 14:10:00 0:04:00 5:06:00
Quepém 6:03:09 0:03:09 2:08:07 1/2
Sanguém 3:05:04 1/2 0:03:00 2:00:06
Canacona 4:10:06 - 3:02:03
Perném 7:04:10 0:02:03 4:08:00
Porvorim 12:00:00 0:01:06 2:07:03
Goa Velha - - 2:14:06
Fiedade 1:00:01 1/2 - 3:12:06
Praganã 1:13:09 0:07:00 1:12:09
Somma 1.362:09:08 66:10:89 910:03:01 1/2

Administração geral dos correios. 7 de janeiro d 1886. = O administrador geral, Luiz José de S. e Bri­to.

A extrapolação para 3 anos leva-nos a números próximos dos 150.000 bilhetes, justificando assim mais do que duas encomendas. Sabemos que existe no mercado uma grande quantidade de bilhetes não usados, e mais significativamente ainda que existia um saldo de 40.000 bilhetes da taxa de 3 réis e 4.000 da taxa de 1 tanga nos cofres da junta de fazenda no fim do ano económico de 1884/5 (em Junho de 1885).

JUNTA DE FAZENDA PUBLICA DO ESTADO DA INDIA
Balanço da entrada e salda dos bilhetes postaes recebidos de Bombaim, do anno economico de 1885-1886

ENTRADA
  N.° de bilhetes Importancia
  3 réis 1 tg.ª Rup. tg. rs.
Saldo do anno economico de 1884-1885. 40.324 4.631 919:08:00
  40.324 4.631 919:08:00
SAÍDA
  N.° de bilhetes Importancia
  3 réis 1 tg.ª Rup. tg. rs.
Despeza effectuada no anno economico de 1885-1886 40.301 4.000 879:11:00
Saldo que passa para o anno seguinte de 1886 -1887 24  631 39:13:00
  40. 324 4.631 919:08:00

Balanço da entrada e saída dos bilhetes postaes recebidos do reino, do anno economico de 1885-1886

ENTRADAS
  N.° de bilhetes Importancia
  3 réis 1 tg.ª Rup. tg. rs.
Saldo do anno economico findo de 1884-1885 30.000 5.000 781:04:00
Entrada efeetuada no. anno economico de 1885-1886 30.000 30.000 2.343:12:00
  60.000 35.000 3.125:00:00
SAÍDAS
  N.° de bilhetes Importancia
  3 réis 1 tg.ª Rup. tg. rs.
Saída effectuada rio anno economico de 1885-1886 9.700 - 151:09:00
Saldo que passa para e anno seguinte de 1886-1887 50.300 35.000 2.973:07:00
  60.000 35.000 3.125:00:00
Verificado á vista do cofre--Francisco Joaquim Ferreira do Amaral,
Governador Geral--João Joaquim d'Oliveira Negar, secretario vogal--Francisco
Teixeira de Mesquita ajudante do procurador da corôa e fazenda.
Thesouraria geral, 30 de julho de 1886=O thesouroiro geral de
Estado, Bernardo José da Silveira e Lorena.

Balanço da entrada e saida das estampilhas postaes com indicação da moeda da convenção, recebidas do reino com effigie do Rei, do anno econômico de 1885-1886
ENTRADA
  Numere de estampilhas Importancia
  1 1/2 real 4 1/2 réis 6 réis 1 tg. 2 tg. 4 tg 8 tg. Rup. tg réis
Entrada  effectuada no anno economico de 18851886 100.000 200.000 100.000 14.000 14.000 7.000 7.000 16.468:12:00
SAiDA
  Numere de estampilhas Importancia
  1 1/2 real 4 1/2 réis 6 réis 1 tg. 2 tg. 4 tg 8 tg. Rup. tg réis
Saldo que passa para o              anno economico de 1886-1887 100.000 200.000 100.000 14.000 14.000 7.000 7.000 16.468:12:00

Verificado à vista do cofre--Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, Governador Geral - João Joaquim d'Oliveira Negar, secretario vogal--Francisco Teixeira de Mesquita, ajudante de procurador da corôa e fazenda.
Thesouraria geral, 30 de junho de 1886=O thesoureiro geral do Estado, Bernardo José da Silveira e Lorena.

De qualquer modo, parece que no início de 1886 estavam em vias de se esgotar, pois assim foi transmitido ao público na P.P. N.º107 de 23 de Fevereiro de 1886, onde se lê:

Governo geral
Nº 107 - Estando a acabar os bilhetes postaes actualmente em circulação, e convindo que entrem em circulação novos vindos do reino: o conselho governativo, conformando-se com a consulta da junta da fazenda, há por conveniente determinar que sejam postos em circulação os novos bilhetes postaes, que são como os anteriores das taxas de uma tanga e de um quarto de tanga, sendo estes de côr verde, e aquelles de côr azul; tendo uns e outros no alto a effinge de Sua Magestade o Rei de Portugal.
As autoridades e mais pessoas, a quem o conhecimento e execução d'esta competir, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo geral em Pangim, 23 de Fevereiro de 1886 =Antonio, Arcebispo primaz, José de Sá Coutinho = José Ignacio de to, José Maria Teixeira Guimarães, Secretario Geral.

Da leitura deste documento poderíamos concluir que os novos bilhetes, com a efígie de D. Luís, gravados na casa da Moeda de Lisboa, poderiam ter entrado em circulação em fins de Fevereiro de 1886, ou início de Março. A data avançada por Oliveira Marques é a de 1 de Março.

E se esta data é perfeitamente aceitável para a taxa de 3 réis , já não o é para a taxa de 1 tanga, pois que da análise do quadro 04 se verifica que os bilhetes desta última taxa só passaram dos cofres da Junta de fazenda para os Correios já no ano económico de 1886/7, e que portanto até pelo menos 1 de Julho de 1886, não é possível encontrá-los usados.

A data mais antiga que conseguimos arrolar é de 27 de Setembro de 1886, num bilhete de 3 réis expedido de Vernã.


Fig. 2

A situação ainda é temporalmente mais afastada no que diz respeito ao bilhete de 1 tanga, pois aí a primeira data que conhecemos é de 1889 .

Para se ter uma ideia do movimento postal relativo ao ano de 1886, e em particular o dos bilhetes postais, recorremos ao quadro estatístico que se apresenta na figura seguinte, e retirado da obra de I. Gracias.



A quantidade recebida nos dois primeiros envios da metrópole, e que foi de 60.000 da taxa de 3 réis e 35.000 da taxa de 1 tanga era manifestamente insuficiente e desajustada, pois que como vimos não chegaria nem para o consumo de um ano no que respeita ao bilhete de 3 réis e parece demasiada no que respeita ao de 1 tanga.

Dos livros de registo da casa da Moeda, e relativos aos bilhetes postais enviados para a Índia, compilamos o seguinte relativamente aos envios feitos nos primeiros 6 anos :

Data 1/4 Tanga1Tanga
4.12.188330.0005.000
11.11.188530.00030.000
.10.188620.000 
20.7.18875.000 
.11.188725.000 
10.3.188820.000 
4.5.188850.000 
19.9.188815.000 
20.10.188810.000 
9.11.188810.000 
5.12.188810.000 
25.1.188923.000 
Totais 218.00035.000

Como era previsível, e com o aumento de consumo, houve falta de bilhetes da taxa de 3 réis, pelo que o recurso à sobretaxa foi inevitável. Aparecem assim os bilhetes de 1 tanga, nos quais foi aplicada uma sobretaxa para 3 réis, de cor laranja, e de que também não se conhece a quantidade sobrecarregada.

GOVERNO GERAL
N.º 492 - Não sendo sufficientes para o consummo publico os bilhetes postaes, da taxa de 3 réis, existentes actualmente no thesouro publico da provincia;
Attendendo á necessidade de prover sobre esta ordem do serviço, em quanto se não receber de Lisboa o novo fornecimento já requisitado;
Considerando que, quando se deu uma igual falta, más de sêllos postaes, se providenciou mandando sobrepôr as estampilhas de outros cunhos um carimbo especial, representativo das taxas faltantes; e
Convindo proceder-se de igual fórma, para evitar que o serviço e o publico padeçam por um tal motivo: hei por conveniente, conformando-me com a consulta da junta de fazenda publica, determinar que se imprima um carimbo especial de 3 réis n'uma porção de bilhetes postaes de uma tanga, quanto precisar para occorrer á falta de bilhetes postaes d'aquella taxa, e bem assim que se ponham em circulação os bilhetes postaes assim carimbados.
As autoridades e mais pessoas, a quem o conhecimento e execução d'esta competir, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo geral em Pangim, 25 de julho de 1887.
0 Governador Geral,
Augusto Cesar Cardoso de Carvalho.

Como também era de esperar, o recurso foi sancionado superiormente e veio publicado no Boletim Oficial.

As primeiras datas conhecidas, são de Setembro de 1887, podendo pensar-se que a situação já se encontrava normalizada no início de 1888, dado que a partir dessa data escasseiam estes bilhetes usados, embora pontualmente se encontrem exemplares usados em datas posteriores.


Fig. 3

Os bilhetes da taxa de 1 tanga eram utilizados na correspondência para a Europa, e dentro desta a dirigida a Portugal devia representar uma parte significativa Mostram-se alguns exemplos de utilização na figura seguinte.


Fig. 4 (a)

Fig. 4 (b)

A Portaria Provincial de 6 de Março de 1885, fixa a rupia , que vale 192 réis de Goa, em 400 réis de Portugal, pelo que 1 tanga equivale a 25 réis do reino. Era este o porte que se pagava na Índia pelo envio de um bilhete para Portugal, sendo no entanto de 10 réis o porte de um bilhete postal enviado do reino para a Índia.

Esta situação, de excesso de porte pago no ultramar nas suas relações com a metrópole, e muito particularmente nos bilhetes postais, deve ter levado a reclamações que culminaram com o ofício N.º157 da 2ª repartição da Direcção Geral de Correios Telégraphos e Pharoes, datado de 25 de abril de 1891. Não conhecemos o teor deste ofício, mas somente a resposta que lhe foi dada pelo correio de Goa.


O interesse deste documento reside na possibilidade de poderem ter aparecido bilhetes de 4 ½ réis de Goa, exclusivos para a correspondência com Portugal e restantes províncias ultramarinas. Como não houve nenhuma encomenda feita á Casa da Moeda de Lisboa, pode-se presumir que a ter havido em circulação os 1.000 bilhetes de 4 ½ réis, estes foram fabricados (alterados) na Índia. Os inteiros que conhecemos com datas entre Agosto de 1891 e Agosto de 1892, e dirigidos a Portugal, continuam a ser os da taxa de 1 Tanga, ilustrado na figura 5 por um bilhete destinado a Angola, e até ao momento ainda não vimos nenhum nem encontrámos qualquer referência à sua existência.


Fig. 5

Havendo necessidade de por em prática as convenções e acordos postais celebrados em Vienna a 4 de Julho de 1891, foram publicadas no B.O. N.º84 de 30 de Julho de 1892, as novas tabelas de porte válidas para a correspondência expedida da Índia Portuguesa, que se reproduzem abaixo:

MINISTERIO DAS OBRAS PUBLICAS, COMMERCIO E INDUSTRIA
Direcção geral dos correios, telegra­phos e pharoes
2.ª Repartiçáo
Serviço postal internacional e ultramarino
Estando marcado o dia 1 °' de julho do corrente anno para começarem a ter vigor as con­venções e accordos postaes, celebrados em Vien­na em 4 de julho de 1891, os quaes não pode­ram submetter-se á approvação do parlamento na legislatura finda: hei por bem determinar, em vista da proposta da diracção geral dos cor­reios, telegraphos e pharoes, que, a contar do referido dia 1 de julho, e na parte que for applica­vel tanto aos correios da metropole como das provincias ultramarinas, se dê execução provisoria aos mesmos actos, até que elles sejam conve­nientemente sanccionados na futura sessão legis­lativa.
Os ministros e secretarios d'estado dos ne­gocios da marinha e ultramar e dos negocios das obras publicas, commercio e industria, as­sim o tenham estendido e façam executar. Pa­ço, em 8 de junho de 1892 - REI - Francisco Joaquim Ferreira do Amaral = Pedro Victor da Costa Sequeira

Tabellas a que se referem os decretos supra, apresentadas pela administração geral dos correios deste Estado
Porte das correspondencias expedidas da India Por­tugueza para Hespanha e colorias hespanholas
 

Réis

 -

Equivalencia em moeda de convenção

Cartas ordinarias, cada 15.grammas

50

 -

0:02:00

Bilhetes postaes simples, cada um

10

 -

0:00:04 ½

Bilhetes postaes de resposta paga, cada um

20

 -

0:00:09

Jornaes, impressos e amos...

 

 -

 

Manuscriptos ou papeis commerciaes:

     

Até 500 grammas

50

 -

0:02:00

Cada 50 grammas além das 500

5

 -

0:00:03

Correspondencias registadas:

     

Premio de registo, cada carta, bilhete postal ou maço, além do respectivo porte

50

 -

0:02:00

Avisos de recepção, cada um

25

 -

0:01:00

Portes a cobrar pelas correspondencias recebidas

     

Cartas não franqueadas cada 15 grammas

100

 -

0:04:00

 

Correspondencias de qualquer especie insufficientemente franqueadas

Porte correspondente ao dobro do valor dos sêllos que faltarem.

Secretaria de governo geral em Pangim, 2 de julho de 1892.
O Secretario Geral,
João Manoel Correia Taborda.

Portes das correspondencias expedidas da India Portugueza para todos os paizes da União postal Universal.
 

Réis

 -

Equivalencia em moeda de convenção

Cartas ordinarias, cada 15 grammas

100

 -

0:04:00

Bilhetes postaes simples, ca­da um

30

 -

0:01:03

Bilhetes postaes de resposta paga, cada um

60

 -

0.02:041/2

Jornaes e outros impressos cada 50 grammas

20

 -

0:00:09

Amostras:

     

Até 100 grammas

40

 -

0:0l:07 1/2

Cada 50 grammas além das 100

20

 -

0:00:09

Manuscriptos:

     

Até 250 grammas

100

 -

0:04.00

Cada 50 grammas além das 250

20

 -

0:00:09

Correspondencias registadas:

     

Premio de registe, cada car­ta, bilhete postal ou maço, além do respectivo porte

50

 -

0:02:00

Aviso de recepção, cada um

50

 -

0:01:00

Portes a cobar pelas correspondencias recebidas

     

Cartas não franqueadas, ca­da 15 grammas

200

 -

0:08:00

 

Correspondencias de qualquer especie insufficientemente franqueadas

Porte correspondente ao dobro do valor dos sêllos que faltarem.

Secretaria do governo geral em Pangim, 29 de julho de 1892.
O Secretario Geral,
João Manoel Correia Taboda.

Portes das correspondencia, expedidas da India portugueza para os paizes fóra da União postal universal. 1 Abyssinia.
2 Amigos ou Tonga (ilhas) (R).
3 Arabia (á excepção de Aden, Mascate e das provincias de Hedjaz e Yemen) (R).
4 Ascengâo.
5 Bechuanland (R).
6 Cabo de Boa Esperança (R).
7 China e Corêa (á excepção das repartições postaes europeas designadas no 4.º grupo da tabella I) (R).
8 Costa occidental da Africa (Niger, Oil river, Dahomé e Achantis) (exceptuando os territorios pertencentes á União postal univer­sal).
9 Madagascar ( exceptuando Majunga, Santa Maria e Tamatave ).
10 Marrocos (á excepção das repartições postaes hespanholas designadas no 1º ...)
11 Natal (R).
12 Norfolk (ilha).
13 Orange (Estado livre de) (R).
14 Santa Helena (ilha) (R)
15 Sarawak (R).
16 Transwal (R).
17 Tripolitana (á excepção da cidade de Tripoli).
18 Zanzibar (sultanado) ( á excepção da cidade de Zanzibar ).
19 Coloniais ou paizes não especificados.
 

Réis

 -

Equivalencia em moeda de convenção

Cartas ordinarias cada 15 grammas

150

 

0:06:00

Jornaes e outros impressos cada 50 grammas

20

 

0:00:09

Amostras:

     

Até 100 grammas

40

 

0:01:071/...

Cada 50 grammas além das 100

20

 

0:00:09

Manuscriptos:

     

Até 250 grammas

150

 

0:06:00

Cada 50 grammas além das 250

30

 

0:01:03

Correspondencias ­registadas para os paizes que ­vão marcados com a letra R

Premio de registo, cada carta ou maço, além do porte respectivo

50

 

0:02:00

Portes a cobrar pelas correspondencias recebidas

Caras não franquedas, cada 15 grammas

300

 

0:12:00

 

Correspondencias de qualquer especie insufficientemente franqueadas

Porte do valor da taxa que os paizes de procedencia indicarem nos respectivos endereços


Observação
A franquia das correspondencias é obrigatoria para os paizes designados n'esta tabella com os numeros 1, 3, 4, 8, 9, 10, 15 e 19
Secretaria do governo geral em Pangim, 29 de julho de 1891.
0 Secretario Geral,
João Manoel Correia Taborda.

A aplicação desta tabela na Índia levou a que dois dias mais tarde surgisse a P.P.N.º405 que diz:

N.º 405
Não existindo no cofre geral bilhetes postaes da taxa de 30 réis de Portugal ou 0:01:03 da moeda corrente n'este Estado para executar; desde esta data, as novas tabellas dos portes das correspondencias expedidas para Portugal, colonial portuguezas e outros paizes de união postal universal: hei por conveniente, approvando a proposta do inspector da fazenda provincial, em officio de 30 de julho proximo findo determinar que se adopte o carimbo feito na imprensa nacional, collocand - e ao lado do sëllo duma tanga nos bilhetes postaes, existentes no cofre, as armas reaes com a legenda = supprimento de tres réis =.
As autoridades e mais pessoas, a quem o conhecimento e execução d'esta competir, assim o tenham entendido e cumpram.
Palacio do governo geral em Pangim, 1 de agosto x e 1892.
O Governador Geral,
Francisco Teixeira da Silva.

Aparece assim justificado a aposição do "Supprimento 3 réis", aplicado em bilhetes da taxa de 1 tanga afim de perfazer os 15 réis de Goa (12+3), que equivaliam a 30 réis do reino e que passava a ser a nova taxa para Portugal.

Esta portaria teve pronta execução, pois conhecemos um bilhete usado com data de 1 de Setembro, e dirigido a Lisboa.


Fig. 6

As alterações introduzidas pela congresso de Vienna não se limitaram às tabelas de portes, pelo que o Correio Geral de Goa entendeu ser necessário publicar de novo o regulamento e esclarecer alguns pontos, o que foi feito no B. O. de 3 de Setembro, que não transcrevemos para não alongar mais este texto.

Uma aberração que estas novas tabelas contêm, aparece na Tabela n.º1 (2º grupo), onde se pode ver que o porte de uma carta ou de um bilhete para Hespanha (via Portugal) é cerca de um terço do preço que custa enviá-lo para Portugal. Além disso repõe a necessidade de um bilhete de 4 ½ réis que certamente ainda não existia.

Uma outra maneira de realizar o porte de 15 réis consistiu em aplicar uma franquia adicional de 1 tanga ao bilhete de ¼ de tanga, como aconteceu nos dois exemplares que se mostram na figura 7


Fig. 7 (a)

Fig. 7 (b)

Na figura seguinte apresenta-se um bilhete postal de ¼ de tanga, dirigido a Lisboa que foi porteado pelo correio de Nova Goa. Para o porte correcto, faltavam 12 réis de Goa, o que equivale a 25 réis do reino, pelo que o porte e multa a pagar pelo destinatário é o dobro do valor em falta, portanto 50 réis do reino, ou 12,5 cêntimos em moeda da convenção.


Fig. 8

Em Maio de 1895, foram enviados para Goa bilhetes postais do tipo anterior mas com a efígie do rei D. Carlos. Por motivos que desconhecemos, somente foram enviados bilhetes da taxa de ¼ de tanga, para a correspondência interior e para a Índia Inglesa, pelo que a correspondência para a Europa ainda se fazia com os antigos bilhetes com "supprimento", ou com os novos com franquia adicional.

È desta modalidade, com manifesto interesse filatélico que se ilustram três exemplos, com franquia adicionais de emissões postais distintas, servindo também de encerramento destas notas sobre os primeiros inteiros postais da Índia Portuguesa.


Fig. 9


Fig. 10 (a)

Fig. 10 (b)

24 de Setembro de 2001



 

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